« JOSÉ DUARTE NA RÁDIO | Entrada | EXPOSIÇÃO "A CASA DO JAZZ" NA TREM AZUL »

agosto 10, 2009

JOÃO PAULO EM ENTREVISTA

Photobucket
João Paulo

João Paulo é um dos mais conceituados pianistas portugueses de jazz. Já este ano lançou "Scapegrace", com o trompetista texano Dennis González, e "White Works", disco a solo onde o pianista trabalha repertório de Carlos Bica. O "Improvisos Ao Sul" falou com ele.

Para além da bem conhecida amizade e cumplicidade musical que o liga a Carlos Bica, como surgiu a ideia de fazer um disco baseado na música dele? É uma ideia antiga?
Sim, é uma ideia antiga, do Carlos. O disco "Diz", (de 2001, se não estou em erro) incluía uma composição do Carlos Bica para piano solo. Lembro-me de já nessa altura ele exprimir o desejo (ainda vago) de produzir um disco com composições dele tocadas por mim, a solo. A ideia terá depois amadurecido com o tempo e, há cerca de dois anos, o Carlos fez-me a proposta concreta e começamos a trabalhar no projecto.

Qual foi o critério então utilizado para a escolha do repertório a incluir no disco? Foi uma decisão sua ou trabalhada em conjunto com ele?
Trabalhámos em conjunto. O Carlos foi trazendo resmas de composições para cima do piano, eu fui tocando; e o repertório foi-se clarificando progressivamente, por filtragem, ou filtragens, sucessivas. O objectivo era o de chegar a um conjunto de peças o mais harmonioso possível.

Os dois partilham um universo musical com evidentes pontos de contacto, designadamente através da acentuada componente melódica e da exploração de uma certa dimensão poética. Concorda com esta ideia?
De certa maneira, sim. Quanto à partilha e aos pontos de contacto, concordo, claro. Só que a afinidade vai para além deste ou daquele aspecto da música, seja a melodia, ou não. Acho mais simples dizer que se trata de um caso de verdadeira amizade musical, de cada um gostar de ouvir a música do outro.

Quais são então os traços essenciais da música de Carlos Bica com que mais se identifica?
Eu gosto muito, mesmo muito, da música do Carlos Bica mas isto não quer dizer que me identifique com ela. Não me lembro de nenhuma composição do Carlos que pudesse ter sido composta por mim. E quando escuto uma composição dele, vejo a cara dele, não vejo a minha.

Achei particularmente conseguida a sua expressão “aqui toca-se a solo com o outro”...
Sem aprofundar muito o lado paradoxal da ideia, que é o de tocar com a ausência do parceiro, com as marcas deixadas por quem não está, etc. diria que o tocar com alguém a solo, neste caso, também se refere muito prosaicamente ao modo como o disco foi gravado; aqui o compositor estava fisicamente presente, na qualidade de produtor discográfico, activo , intervindo com comentários e sugestões. No caso de um disco de Bach, por exemplo, isto não seria possível.

Mas o que há efectivamente de João Paulo neste disco? O que acrescentou? As três improvisações que juntou são espelho disso?
A improvisação está presente ao longo do disco, sob diversas formas, desde a improvisação livre, caso das três peças que vêm assinadas por mim, até à forma mais "clássica" das variações sobre um tema, próxima do tratamento dado habitualmente a um standard de jazz. Também há casos de "pura interpretação" em que as notas são todas escolhidas pelo Carlos Bica, "A Princesa e o Lago" por exemplo. Mas mesmo aqui terei deixado a minha marca, para o bem ou para o mal. No momento de tocar, é também a vida do intérprete que se faz ouvir nas linhas traçadas pelo compositor. Um pouco (não totalmente, mas um pouco) como o retratista que traça as linhas de um outro rosto. Não é autor do rosto mas autor do traço.

Certa vez, em entrevista, o Carlos Bica disse-me que “todo o músico tem interesse em estar em permanente movimento, tem necessidade de ser constantemente surpreendido”. Partilha desta convicção?
Se não entrarmos em pormenores e distinções quanto ao tipo de movimento, velocidade, distância percorrida e outras miudezas, sim, concordo que a experiência musical contribui bastante para inculcar a convicção anti-platónica de que o ser é, na verdade, movimento.

Associa-se muitas vezes a música de ambos a uma certa noção de “portugalidade”. Assume isso? Incorpora essa vertente? É algo deliberado ou que surge espontaneamente no processo criativo?
A “portugalidade”, sinto-a como uma característica do corpo. Do corpo que fala, canta, toca…e, assim sendo, «português» nomeia certas qualidades básicas do instrumento, do corpo como instrumento. É portanto uma condição, para não dizer uma fatalidade. Em determinado ponto da existência terei conseguido aceitar essa condição de «português»; julgo que o Carlos Bica também.

Alguma vez se confrontou com a possibilidade de gravar este disco de leituras de peças de Bica com outro tipo de formação?
Está talvez a pensar em orquestrações ou versões para quarteto de cordas, por exemplo...

Por exemplo...
Ainda não, mas pode vir a acontecer. Falou-se, em tempos, de um projecto com uma banda filarmónica que depois não se concretizou…

Jogando com o nome do disco: a música de Bica é "branca"?
O título foi, confesso, uma proposta minha. Não que a música seja, simplesmente, branca…a certa altura, reparei que, nos títulos que o Carlos dava as peças, a ideia de "branco" aparecia recorrentemente, quer na própria palavra "White Wall", "White Vivace", quer nas conotações da palavra "A Infanta Defunta", "Iceland"…e então lembrei-me de propor este traço comum, o nome da cor. Também teve algum peso na decisão por White Works o reparar na homofonia com o título do célebre poema «The White Birds» de W. B. Yeats.

“White Works” é o seu segundo trabalho a solo lançado em apenas 2 anos (depois de “Memórias de Quem”, em 2007). Será este o contexto que prefere para melhor veicular a sua personalidade musical?
A haver preferência, não é da minha parte. O solo é apenas uma das vias de expressão possíveis.

Presumo que não se considere um músico de jazz, na mais redutora acepção da expressão. Como se posiciona esteticamente, enquanto músico e compositor?
Sinto-me bastante desarmado para responder…os nomes de estilos e tendências só me fazem sentido enquanto histórias, não enquanto sistemas fixos. O melhor que consigo arranjar para nomear algo central naquilo que faço é «improvisação», palavra fugitiva, admito, que diz muito do processo criativo e nada da obra propriamente dita. Mas este dizer pouco agrada-me e inspira-me confiança.

Tem estado em grande actividade. Já este ano lançou “Scapegrace”, com o trompetista texano Dennis González. Já tem planos sobre o que vai fazer nos próximos tempos?
Sim, planos e esperanças. No próximo ano lectivo vai, em princípio, intensificar-se a minha actividade como professor na Escola Superior de Música de Lisboa, que abriu este ano uma licenciatura em Jazz. Continuarão os concertos a solo, em trio etc.. hei-de levar a cabo, em breve, um projecto com a OJM; também têm vindo a crescer as colaborações com gente mais jovem, e espero que a tendência se mantenha.

[O Improvisos Ao Sul deve um agradecimento especial à Raquel Lains por ter proporcionado esta entrevista.]

Publicado por António Branco às agosto 10, 2009 06:38 AM

Trackback pings

TrackBack URL para esta entrada:
http://improvisosaosul.weblog.com.pt/privado/mt-tb.cgi/183487

Comentários

Comente




Recordar-me?