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julho 17, 2009

BILLIE HOLIDAY MORREU HÁ 50 ANOS

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Love is like a faucet, it turns off and on.
(Billie Holiday)

Diz-se que Thelonious Monk tinha uma fotografia de Billie Holliday pendurada no tecto sobre o seu piano. Ainda hoje, cinquenta anos volvidos após a sua morte, Billie Holiday continua a ostentar o título de maior cantora de jazz de sempre. Mas o caminho foi longo e tortuoso...

Eleanora Fagan nasceu em Filadélfia (outras fontes referem Baltimore como local de nascença), no seio de uma disfuncional família negra e pobre, a 7 de Abril de 1915. Quando nasceu, os seu pais ainda eram adolescentes: o pai, Clarence Holiday, tinha 15 anos de idade; a mãe, Sara (Sadie) Fagan, apenas 13.

Foi violada por um vizinho quando tinha apenas 10 anos. Como era mulata e tinha as formas já bastante desenvolvidas para a sua idade, o juiz considerou que a culpa era dela. Passou a abominar o sexo desde então... Na sequência desse acontecimentos, acabou por ser internada numa casa de correcção, onde, certa vez, foi obrigada a partilhar a cela com uma rapariga morta. Feriu-se com alguma gravidade ao tentar desesperadamente abrir a porta...

Em 1929 mudou-se para Nova Iorque com a mãe. Nesse ano rebentava em Wall Street a Grande Depressão, cujos devastadores efeitos económicos, políticos, sociais e culturais atingiriam transversalmente a população, em particular os sectores mais desfavorecidos...

A consagração definitiva chegaria por via das suas lendárias apresentações com as orquestras de Duke Ellington, Count Basie (as gravações efectuadas no Savoy Ballroom, de Nova Iorque, em 1937 são históricas) e Artie Shaw. Em 1936, gravou com Teddy Wilson, pianista do lendário quarteto de Goodman.

Teve então oportunidade de trabalhar com o lendário saxofonista tenor Lester Young... Foi Young quem resolveu separar o “day” de “holiday” e assim nasceu a alcunha de “Lady Day”. A cantora respondeu, apelidando-o de “Prez” (abreviatura de President)...

A sensibilidade e a emoção que colocava na forma profunda como cantava, aproximaram-na da abordagem desenvolvida por Lester Young, com quem, em quatro anos, gravou cerca de meia centena de canções... Pareciam musicalmente feitos um para o outro, tal era o grau de cumplicidade e empatia entre os dois... Notável a afinidade estética da abordagem de ambos... O resultado está consubstanciado em algumas das mais sublimes gravações da história do jazz...
Apesar do sucesso que conseguiu granjear, cantando nos maiores palcos dos Estados Unidos, Billie Holiday viu-se, a partir de 1940, completamente enredada pelos vícios do álcool e das drogas. Diz-se que começou a consumir drogas para combater as dores de dentes resultante de uma cárie... Nunca mais parou.

Em 1945 é contratada pelo empresário Norman Granz para integrar o lendário festival itinerante “Jazz at the Philharmonic”. Grava uma nova versão de “Strange Fruit”.

No ano seguinte participa no filme “New Orleans” ao lado de Louis Armstrong, no qual desempenha o papel de uma empregada doméstica, que bem conhece da vida real... Trabalhava, enfim, ao lado do seu ídolo...

Em 1952, e já com a voz em processo de declínio, assina um contrato de 5 anos com Norman Granz, que lhe permitiu equilibrar a carreira, após uma fase de gravações para a Decca num formato mais pop, muitas vezes acompanhada por secções de cordas.

Em Dezembro de 1957 apresenta-se no programa da CBS “Sound of Jazz”, onde é acompanhada por nomes históricos como Lester Young, Coleman Hawkins, Gerry Mulligan e Ben Webster (saxofones), Roy Eldridge (trompete), Milt Hinton (contrabaixo) e Jo Jones (bateria). O desempenho da cantora em “Fine and Mellow” é verdadeiramente inesquecível.

As suas últimas gravações mostram que, apesar da voz cansada, a sua técnica inimitável de mantinha intacta... Billie Holiday gravou algumas pérolas apenas a poucos meses de morrer.

Se é certo que a partir do início da década de 50 a sua voz começou a perder qualidades, não é menos verdade que é precisamente nessa fase, quando os problemas se intensificaram, que a intensidade emocional e o dramatismo das suas interpretações alcançam uma expressão inigualável.

A especialíssima forma de cantar, com uma voz etérea e sensual, mas levemente rouca, uma dicção sofrida e um fraseado inigualavelmente intenso fazem de Billie Holiday uma das mais comoventes cantoras de jazz de sempre... Todo o seu sofrimento está espelhado na sua voz, na forma como se apropriava das palavras, com aquele tão característico atraso em relação ao tempo...

Billie Holiday tinha uma personalidade auto-destrutiva. Levou uma vida de excessos, marcada pelo abuso continuado de álcool e heroína e por um sem número de tempestuosas relações amorosas.

Os seus últimos anos de vida foram de luta contra a heroína, que acabaria por matá-la... Conta-se que já na cama de um hospital nova-iorquino ainda pedia as doses de heroína, tal era o seu grau de toxicodependência, acabando mesmo por ser presa...

Billie Holiday morreu em Nova Iorque, a 17 de Julho de 1959... faz hoje meio século...

Publicado por António Branco às julho 17, 2009 07:36 AM

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