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Ben Stapp (foto: Vilma Pflaum)
Depois de uma estada em Portugal, o jovem tubista norte-americano Ben Stapp regressou ao seu País e lançou um muito conseguido disco de estreia como líder, acompanhado por dois improvisadores de luxo: Tony Malaby e Satoshi Takeishi. O “Improvisos Ao Sul” falou com ele.
Sendo certo que a tuba ocupou lugar de destaque nas formações dos alvores do jazz, não é menos verdade que o seu papel foi empalidecendo com o decurso da história desta música, à medida que outros instrumentos foram ocupando o seu lugar (em parte por limitações técnicas da própria tuba) e outros estilos se foram impondo. Em todos os períodos da história do jazz, sempre houve, porém, tubistas que fizeram questão em manter viva a chama deste corpulento instrumento de som grave e rude: Bill Barber, Howard Johnson, Ray Draper, Don Butterfield, Bob Stewart, entre outros. Nos últimos anos, tem-se assistido a uma redescoberta da tuba, com alguns músicos a darem cartas, como Marcus Rojas, François Thuillier e o português Sérgio Carolino.
Benjamim (Ben) Stapp, jovem tubista norte-americano que acaba de lançar o seu disco de estreia, intitulado “Ecstatsis”, pela mão da Uqbar Records. Mas voltemos atrás, ao momento em que Stapp inicia o seu percurso aos 15 anos, no Sacramento Youth Jubilee Festival, onde se apresenta em três anos consecutivos. Toca depois em muitas big bands da Califórnia, integrando também outros ensembles, entre os quais um liderado por Bruce Fowler, trombonista conhecido pela sua associação a Frank Zappa. Na UCLA estuda com Tommy Johnson e em Inglaterra com Roger Bobo. Ganha diversos prémios e apresenta-se em diversas partes do globo, reivindicando, desde logo, atenção para o seu trabalho.
Actualmente a viver em Brooklyn (Nova Iorque), Stapp é conhecido dos amadores de jazz em Portugal. A sua estada no nosso País permitiu àqueles que o escutaram ficar com a noção de que estavam perante um caso sério de talento e dedicação.
Por cá tocou com Alípio C. Neto, Jean-Marc Charmier, Ricardo Freitas, Johannes Krieger, Sérgio Carolino, Paulo Curado, entre muitos outros. Surge como convidado especial no disco “The Perfume Comes Before The Flower” (Clean Feed), do quarteto de Alípio C. Neto, com Herb Robertson, Ken Filiano e Michael T. A. Thompson. Finda a permanência em Portugal, mudou-se para Nova Iorque onde, após uma natural fase de adaptação, já se movimenta nos círculos do jazz mais livre.
Como defines o teu primeiro CD como líder, “Ecstasis”?
Para mim, este álbum representa uma visão que começou quando me mudei para Portugal, em 2005. Não é completamente claro quando arranquei, mas, com as experiências que ganhei ao tocar com outros músicos em Portugal, Inglaterra, Nova Iorque e Áustria (enquanto residi em Lisboa), comecei a perceber como a minha personalidade assentava neste estilo de música.
Neste disco surges acompanhado por dois músicos de primeira linha, o saxofonista Tony Malaby e o percussionista Satoshi Takeishi. Como é trabalhar com Malaby? Como chegou ao teu contacto?
Foi uma grande experiência trabalhar com o Tony. A sua entrega e abertura para discutir a música foram particularmente agradáveis. Por exemplo, tive uma sessão com o Tony na qual discutimos os momentos onde haveria lugar a improvisação. Originalmente, eu tinha duas versões da música, uma para ser tocada com as partes improvisadas todas abertas e uma outra na qual havia alterações. Ele disse, “Vamos misturá-las”. Eu pensei que era uma ideia brilhante e de facto isto acrescentou bastante força às composições. Também devo mencionar o trabalho com o Satoshi. Na realidade, foi Satoshi quem abordei primeiro. Discutimos o projecto e possíveis saxofonistas. Reparei logo na forma como o Sato se mostrou receptivo e encorajador. O seu apoio do princípio ao fim do projecto foi inspirador. Quando abordei o Tony e lhe contei do meu plano, ele disse, “Vamos fazer primeiro uma sessão e vemos o que acontece”. Após o primeiro ensaio posso dizer que ambos os músicos gostaram da música e da dinâmica da colaboração. O Sato e o Tony são personalidades calorosas que me ajudaram a extrair o melhor de mim e me permitiram expressar quem eu era na altura da gravação.
Estás satisfeito com o resultado final?
Estou satisfeito com a gravação. Tinha uma visão muito específica para materializar e então quando ouço a gravação sei que foi feita com total sinceridade e que é completamente representativa da minha identidade musical na altura. O facto de termos conseguido gravar 9 peças em 4 horas, após dois ensaios de duas horas, e de que a maior parte das peças são primeiros takes, para mim são mostras de como especial e compatível este grupo é. Outra coisa importante é que Tony e Sato tocam com uma liberdade que ajudou a preencher espaços entre partes escritas, mudanças e improvisação aberta. Algumas das partes mais interessantes são as transições entre as secções improvisadas e a música escrita. Nas 9 peças foi feita uma única edição, para “amaciar” uma transição; tudo o resto foi gravado ao vivo. Para melhor se compreender o sucesso desta gravação, tenho de referir alguns grandes momentos na gravação que me continuam a fascinar. Em “Painted Sharks”, o solo do Tony é incrivelmente melódico e inesquecível. “Machu Picchu”: no final da peça, quando estão apenas Tony e Satoshi, surgiu um fino “strait-toned” Tony, acompanhado por um “madman-on-drums”. No estúdio, mal podia conter o meu entusiasmo quando o Sato was annihilating a bateria sobre a melodia. Aos 4min e 20s, aumentem o volume… é sublime! Não posso continuar porque a música é algo pessoal e não quero forçar a minha estética...
E o que mais te desgostou em todo este processo?
O mais difícil foi que, após a sua conclusão, não obtive a resposta que antecipei. Felizmente, acreditei o suficiente nesta gravação para lançá-la eu próprio. Assim que enviei informação sobre a sua saída oficial, 10 meses após a gravação, o Bruce Gallanter da DMG [Downtown Music Gallery] pediu 20 cópias, e pouco depois escreveu uma recensão muito positiva. Um mês depois, saíram outras 4 recensões. Alguns comentários: “o sólido arranque de uma nova voz”, “grande estreia”, “o novo homem da tuba”, “um dos grandes compositores da música improvisada moderna” e “alguém certamente a seguir”. Após um ano de procura interior e então um súbito número de grandes recensões, podem imaginar o quanto em êxtase eu estava. É uma boa história para acreditarmos em nós próprios.
Existe uma nova vaga de tubistas a dar cartas. A tuba parece estar a re-ganhar o papel de outrora... Concordas?
Penso que haja qualquer coisa especial em ter uma tuba num grupo. Continua a não ser um dos mais típicos instrumentos no jazz, mas fez boa parte da sua história e está de regresso para fazer mais alguma. Na verdade, uma das razões para o contrabaixo ter substituído a tuba foram as limitações técnicas da tuba, à época. Agora, com uma nova pedagogia, graças a professores com mestria clássica, como Tommy Johnson, Roger Bobo, Mel Culbertson e Sérgio Carolino, só para mencionar alguns, e também novos instrumentos, a tuba pode fazer praticamente tudo o que o contrabaixo faz. Claro que o som dos dois instrumentos é muito diferente, e com um som vem uma associação. Mas com a tuba a encontrar uma multiplicidade de papéis na cena do jazz experimental jazz, vai aparecer no mainstream. É só uma questão de tempo. E ao longo deste disco estou constantemente a desempenhar o papel de um tubista na música moderna. Não quis usar nenhuma das convenções típicas que a tuba tem com o jazz. Sim, uma tuba pode fazer uma rápida linha de baixo, mas tal apenas propaga interminável competição entre a tuba e o contrabaixo. O mais importante para um tubista é o que é que pode oferecer de único ao instrumento e que tipo de ambiente musical pode suportar. Com as novas possibilidades técnicas para o instrumento, nova e especial música pode estar a surgir; não necessariamente uma melhor execução dos antigos estilos convencionais.
Para ti, o que significa a música?
Bem, eu fui definitivamente infectado por algum insecto musical. Não houve escolha para mim, quando o apanhei. Não há mais nada que me permita dissociar completamente do mundo material, e pôr toda a minha essência num meio abstracto. A música dá significado à minha vida e preenche a minha necessidade de criar e de me exprimir como artista. Posso também relacionar a música com a filosofia e a matemática, que também adoro, mas esta outra entrevista...
Podes apresentar-nos o teu conceito de improvisação?
A improvisação consiste em material ensaiado, ou material que o improvisador ouviu antes; algoritmos complexos para criação de material novo baseado em certas regras ou convenções; e, algum factor-x que permite vários graus de execução e qualidade dos elementos mencionados. Não acredito que a música improvisada venha de nenhures, mas sim que é uma sofisticada fusão daqueles três elementos. É possível ouvir música que ninguém ouviu antes, ou que o improvisador não pode explicar a sua origem, mas isto não significa que não haja origem. Se olharmos para a Matemática – e para a teoria do caos, em particular – que lida com sistemas dinâmicos cujos estados evoluem no tempo, incluindo fenómenos naturais natural como a mudança do tempo, podemos ver como uma simples fórmula que depende do tempo pode gerar resultados “caóticos” completamente imprevisíveis. Como compositor e improvisador, gosto de me focar nas condições iniciais que podem permitir os resultados mais variados e expressivos, caóticos. Não quero criar nada novo peça-a-peça, mas sim decidir de início sobre o sistema e tentar descobrir todo o potencial desse sistema. É outra forma também de descrever estilo. Acredito que este mundo tenha sido criado através da mente humana, sempre em evolução. Com os avanços e as mudanças no entendimento do mundo pelo Homem, o mundo miraculosamente começa a mudar com ele; não há coincidências aí. Como improvisadores, ouvimos e improvisamos, mas tudo acontece na mente e através da mente
O que tens feito em Nova Iorque?
No que à música diz respeito, tenho tocado bastante e feito muitas sessões. Não tenho feito tantos concertos como gostaria em Nova Iorque, mas é impossível. Toquei com a cantora romena Sanda Weigl, Satoshi Takeishi e Shoko Nagai em Janeiro. Toco regularmente com outro trio chamado CuCuRi, com Juan Pablo Carletti na bateria e Kenny Warren no trompete. As sessões em Nova Iorque são espectaculares e estou a começar a tocar mais e com mais músicos incríveis. Estou também a escrever música para alguns conjuntos e grupos de câmara. Estou também a trabalhar com o compositor Sunny Knable em novo repertório para tuba e com José Valente [violetista português] em alguns ensembles. No que concerne à cidade, não foi uma mudança fácil para mim. Quando cheguei não disse “Uau, este é o sítio para mim!”. Disse qualquer coisa como, “Bem, vamos pôr isto a funcionar!”.
E agora, o que se segue?
O que vem a seguir? Mais gravações, digressões, lançarei o meu sítio em breve, mais composição, terminar um ballet que comecei, acabar de compor e gravar com o meu ensemble de jazz, tocar mais…
Sentes falta de Portugal?
Sinto falta de Portugal. “Tenho saudades, pá!” Sinto a falta de Pedro Carvalho, Gil Gonçalves, Pedro Nuno, Alípio Neto, Eduardo Chagas, Jean-Marc Charmier, Ricardo Freitas, Gonçalo Lopes, Rui Gonçalves, Johannes Krieger, Sérgio Carolino, Paulo Curado, André Machado, Zé Eduardo, Vilma Pflaum, Amélia Marabuto, do pessoal da Clean Feed e muitos mais. As minhas memórias de Portugal estão envolvidas por estas pessoas com quem passei muito do meu tempo em Portugal. Claro, tenho também saudades da comida, das paisagens, e da música; mas não tenho memorias de nada sem as pessoas com quem as experienciei.

Ben Stapp – “Ecstatsis”
Uqbar Records
Ben Stapp (tuba); Tony Malaby (saxofones tenor e soprano); Satoshi Takeishi (percussão)
Como parceiros para a sua estreia em disco, Ben Stapp escolheu – à medida das suas intenções – dois improvisadores de topo: o saxofonista Tony Malaby e o multi-percussionista Satoshi Takeishi. Malaby é um dos saxofonistas mais requisitados da actualidade, movendo-se com igual destreza em ambientes mais mainstream e mais vanguardistas. As suas qualidades de brilhante improvisador são amplamente reconhecidas. Takeishi é um mestre da percussão, tendo já colaborado com nomes como Anthony Braxton, Myra Melford e Dave Liebman. Para além de dotado instrumentista, Stapp surge-nos igualmente neste disco como um compositor de inegáveis recursos. Todos os temas incluídos em “Ecstatsis” são da sua lavra, demonstrando clara habilidade para a construção de uma música rica em detalhes, orgânica e harmonicamente complexa, com significativa margem de manobra para a improvisação aberta. «Para mim, este disco representa uma visão que começou quando eu me mudei para Portugal, em 2005. Não estava completamente clara quando comecei, mas, com a experiência que ganhei ao tocar com outros músicos em Portugal, Inglaterra, Nova Iorque e Áustria, comecei a ver como a minha personalidade musical poderia caber neste estilo de música», refere o músico. As duas primeiras peças do disco, “Painted Sharks” e “Macchu Picchu”, são notáveis indicadores do que se segue. Tony Malaby está soberbo no saxofone soprano, mostrando o seu lado mais lírico na criação de linhas de uma beleza esmagadora. Stapp revela-se exímio na arte do contraponto, assumindo ora a dianteira da pulsação rítmica, ora um papel melódico central. Recorrendo a múltiplos acessórios, Takeishi vai tecendo tapetes rítmicos de filigrana em torno dos outros dois músicos, assumindo plenamente um lugar de primeiro plano na geometria sonora do trio. Com “Once in Évora” remete-nos para experiências em solo alentejano. “Negative Space” é uma peça de câmara, tranquila, onde a articulação entre os três componentes chega próximo da perfeição. Stapp e Malaby mais recatados, Takeishi em ebulição. Malaby volta em “Power Drop” (aqui no tenor) a exibir uma eloquência discursiva espantosa, com Stapp a retorquir à altura, adornando e complementando. O derradeiro tema, “Forgotten Scream”, é mais um exemplo da delicadeza e contenção. Uma auspiciosa estreia, que deixa água na boca para o que o jovem e talentoso músico poderá fazer nos anos vindouros. A julgar pela estreia, as expectativas só podem ser elevadas.
Para mais informações: http://www.myspace.com/benstapp.
Publicado por António Branco às abril 8, 2009 06:08 AM
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