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fevereiro 10, 2009

ENTREVISTA NELSON CASCAIS

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Nelson Cascais

Com o novo “Guruka”, o seu terceiro disco na condição de líder, como pretexto para a conversa, o contrabaixista Nelson Cascais deixa-nos um olhar sobre o seu percurso e sobre os planos que traça para o futuro.

Como surgiu a música na tua vida?
Surgiu pela via familiar. A música era uma constante em nossa casa. O meu pai cantava e tocava guitarra, a minha mãe gostava imenso de cantar e o meu irmão tocava em bandas de rock. O gira-discos estava sempre a tocar e desde muito cedo demonstrei interesse pela música.

E o interesse pelo jazz?
O interesse pelo Jazz chegou mais tarde. Penso que alguns discos que fui ouvindo lá em casa como Djavan, Caetano Veloso ou Supertramp foram despertando o meu interesse por linguagens mais sofisticadas. Por volta dos meus 15 anos só ouvia rock alternativo e o "Tutu" do Miles. Foi nesta fase que comprei, movido pela curiosidade, dois discos na feira da ladra que me contaminaram definitivamente: "Random Abstract" do Brandford Marsalis e o "Ao Encontro" do Sexteto de Jazz de Lisboa". Pouco depois chegou-me às mãos uma colectânea que incluía Art Blakey, Mingus, Clifford Brown, Billie Holliday, entre outros.

E qual a razão de teres escolhido o contrabaixo? Foi a tua primeira escolha como instrumento?
Primeiro veio o baixo eléctrico. Acidentalmente. No meu 8º ano o professor de Mecanotecnia resolveu criar uma banda de alunos para tocar na festa de fim de ano. Faltava o baixista. Eu ofereci-me. Nunca tinha tocado baixo até então. E lá fiz a coisa. Gostei e decidi que seria baixista. Depois veio contrabaixo. Apaixonei-me pelo som ao ouvir o Jimmy Merrit, o Sam Jones e Mingus.

Quais as tuas principais referências como músico, no contrabaixo mas não só? Absorves outras influências que não da área do jazz?
Há quatro contrabaixistas que admiro profundamente: Paul Chambers, Scott LaFaro, Charlie Haden e Dave Holland. Outras referências importantes são; Miles, Coltrane, Bill Evans, Booker Little, K Jarrett, W Shorter, Tony Williams, John Zorn, Dave Douglas, Kurt Rosenwinkle e David Binney.
Sim e muitas: The Ramones, The Smiths, Depeche Mode, Radio Head, Elliott Smith, Bjork, Bach, Prokofiev, Mahler, Chico Buarque, Ivan Lins, Kool and the Gang, Elvis Presley.

O que costumas ouvir no dia-a-dia? Qual o último disco que compraste?
Tenho andado a ouvir "The complete Columbia Studio Recordings" de Miles Davis e Gil Evans e o "Charms of the night sky" do Dave Douglas. O último disco que comprei foi "In Person" do Elvis Presley, o Rei.

Durante o tempo em que estudaste na Escola de Jazz do Hot, tiveste oportunidade de trabalhar com alguns dos contrabaixistas nacionais de referência, como Carlos Barretto e Bernardo Moreira. Em que medida estas experiências foram importantes na tua evolução como músico?
Foram muito importantes porque ambos transmitiram-me conceitos fundamentais para tocar esta música. Fizeram-me ver muito claramente o que era necessário trabalhar para poder vir a ser um bom contrabaixista de jazz. O Bernardo foi especialmante marcante pois é um verdadeiro entusiasta, um motivador. Era impossível ficar indiferente à sua paixão pelo jazz. Agradeço a ambos o que directa e indirectamente me ensinaram ao longo dos anos.

Esteticamente, como te posicionas?
Não me posiciono. Não dou muita importancia ao assunto. Mas não me incomoda que me posicionem. Apenas procuro fazer música na qual acredite.

O que procuras então com a tua música?
Procuro que dê gozo a mim, a quem comigo a toca e ao público que a escuta. Quando estas três coisas acontecem em simultâneo fico feliz. Sinto que só nesses momentos de partilha, de comunhão, a música faz verdadeiro sentido e atinge a sua plena dimensão.

Queres explicar como é o teu processo criativo?
Começo por ter ideias na minha cabeça umas mais difusas outras mais precisas mas, normalmente, é só quando me sento ao piano que as mesmas começam então a tornar-se claras e a tomar forma. Componho quase exclusivamente ao piano. Quando começo a pensar em escrever um repertório para um disco novo gosto de encontrar uma sonoridade que esteja mais ou menos presente em todos os temas. Pode ser algo tão simples como um determinado acorde ou “voicing” (disposição das notas de um acorde) ou um certo tipo de construção melódica. Penso muito nos recursos timbrícos que tenho à disposição e sempre nos músicos para os quais estou a escrever.

Como balanças composição e improvisação?
Acho que no meu caso cruzam-se bastante. A minha composição desenvolve-se sempre a partir de improvisações, quer na mente quer no contrabaixo ou especialmente no piano. Quando surge algo que me atrai pego na coisa e desenvolvo-a. Com todo o tempo do mundo, tentativa e erro, procurando a perfeição. Quando estou no concerto e faço um solo não tenho esse tempo. Não posso voltar atrás e corrigir algo menos feliz. É tudo muito rápido. Temos que aprender a aceitar o que tocamos. Umas vezes agrada outras não. É claro que procuro ser o mais espontâneo possível mas mantenho sempre alguma racionalidade subjacente.

Explica-nos o teu conceito de improvisação. Interessa-te neste domínio a chamada "composição em tempo-real"?
Procuro ser o mais verdadeiro possível, ou seja, tocar apenas o que ouço realmente na minha cabeça. Sim, interessa-me muito. Tenho tido experiencias nesse domínio muito gratificantes.

Tens tido inúmeras e diversificadas experiências musicais ao longo dos últimos 15 anos, quer como líder quer como sideman… Queres destacar duas ou três que consideres particularmente relevantes?
Não é fácil. Tenho tido a sorte de tocar, desde o início, com músicos incríveis com os quais vivi momentos muito especiais. Sei lá... tocar a música da Maria Schneider sob a sua direcção no Festival de Jazz de Guimarães foi incrível. Tive a oportunidade de tocar com duas lendas vivas do Jazz Americano: Jerome Richardson, que tocou no grupo do Mingus, e Dave Schnitzer que tocou na banda do Art Blakey. Com o grupo do André Fernandes ao lado do Mário Laginha e do Frazão tem sido simplesmente fantástico. E com a grande Maria João... que privilégio.

Em 2002, editaste o excelente "Ciclope", o disco de estreia do teu quinteto, a meu ver um disco já bastante maduro. Três anos depois voltaste às edições em nome próprio com "Nine Stories". Do ponto de vista dos que eram os teus objectivos para ambos os discos, quais os principais pontos de contacto e as diferenças eles?
Estes discos são o resultado de um trabalho feito com grande entrega e crença, da minha parte enquanto compositor e líder, mas também da banda que, inspiradamente, transforma as minhas partituras em música que vai sempre muito para além das minhas expectativas. Penso que isto é algo que aconteceu nos dois discos anteriores e volta a estar presente no "Guruka". Em todos eles procurei coesão ao nível do repertório. Acho que consegui. Acho que a principal diferença entre estes três discos está na estética que apresentam. São todos muito diferentes e espelham a minha evolução natural com os inevitáveis desinteresses, continuidades, novos interesses...

Em meados de Janeiro lançaste o teu novo disco, “Guruka”. Queres descrevê-lo (nome, formação, temas…)?
O meu novo disco chama-se "Guruka". A banda, com a qual estou imensamente feliz, é composta por: Pedro Moreira, André Fernandes, Joao Paulo E. da Silva e o jovem e incrível baterista Iago Fernandez. Além das minhas composições existe um tema do André, outro do Pedro, um do Mathieu Chazarenc e o "Silence" do Charlie Haden.

Já que falamos em discos, está nas tuas cogitações fazer um dia um disco de contrabaixo solo?
Não está.

Em tua opinião existe mesmo um "jazz português" ou apenas um jazz feito em Portugal? Interessa-te essa questão?
Eu penso que sim. Temos uma cultura tão forte, tão marcadamente melancólica que acaba por se fazer notar através de um certo lirismo que encontro em grande parte dos músicos portugueses.

Como vês o actual panorama de festivais, editoras, discos,..., de jazz em Portugal?… Nunca houve tanta abundância… E a qualidade?
Está a melhorar, lentamente. Existem imensos festivais, temos editoras independentes como a TOAP ou a Cleen Feed a fazerem um óptimo trabalho e há cursos de jazz a nascerem por toda parte. Acho que existe ainda muito a fazer mas que implica grandes mudanças de mentalidades. Na minha opinião falta uma política cultural que considere fundamental a formação artística desde tenra idade com a integração das artes no ensino público. Os liceus deveriam ter orquestra clássica e big band, como já acontece noutros países mais desenvolvidos, por exemplo; Falta uma maior vontade de arriscar por parte dos programadores em novos talentos e novas propostas; Falta divulgação ao nível da televisão pública. Lamento a extinção, inaceitável, de programas dedicados à música erudita e ao Jazz nas nossas televisões. Por outro lado temos rádios como a europaLx que tem sido excepcional na divulgação do jazz português. Temos músicos, bandas, discos de elevadíssima qualidade. Temos muita vontade de fazer cada vez melhor e isso vê-se.

DISCOGRAFIA SELECCIONADA:

Como líder:

Nelson Cascais – “Guruka” (TOAP, 2009)
Nelson Cascais – “Nine Stories” (TOAP, 2005)
Nelson Cascais Quinteto – “Ciclope” (TOAP, 2002)

Como sideman:

Pedro Madaleno – “The Sound of Places” (Clean Feed, 2004)
Laurent Filipe – “A Luz” (Clean Feed, 2004)
Quarteto de Jorge Reis – “Pueblos” (TOAP, 2003)
Nuno Ferreira & Companhia Dos Sons – “Spin” (TOAP, 2002)
Isaac Turienzo Trio – “Con Ángel” (La Factoria, 1999)
Ala dos Namorados – “Alma” (EMI-VC, 1996)
Ala dos Namorados – “Por Minha Dama” (EMI-VC, 1995)

Publicado por António Branco às fevereiro 10, 2009 06:24 AM

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