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Jorge Moniz (foto: AB)
Depois de anos na sombra, o baterista barreirense Jorge Moniz decide saltar para a ribalta e apresentar o seu primeiro quarteto, com o qual pretende dar a conhecer a música que faz. O "Improvisos Ao Sul" quis saber mais sobre o seu trajecto e sobre os planos que tem em mente.
Quando e como sentiste o impulso da música? Tens antecedentes musicais na família ou começaste por tua conta e risco?
Tenho antecedentes na área da música clássica mas, de alguma forma, afastados. Pode dizer-se que comecei por minha conta e risco. Comecei como baterista em bandas de garagens no pós punk. Tinha 14 anos. Na altura em que se desvaneciam as influências dos Police e se bebia Cure e U2. As bandas portuguesas da altura como Heróis do Mar, Xutos, Mler If Dada, Sétima Legião e Pop Dell'Arte também exerceram bastante influência na minha maneira de tocar, principalmente a última.
Começaste pelo piano… a bateria surge depois… mas sem largares o piano … Dois amores?
No fundo sempre mostrei mais aptidão para o ritmo. Sempre me ofereceram baterias de brincadeira enquanto fui criança. A primeira bateria a sério surgiu com a primeira banda de garagem. Custou 10 contos. Tive aulas particulares de piano aos 11 anos mas desisti para jogar futebol no Barreirense, aventura que durou muito pouco tempo. Aos 18 anos, após desistir do ISEL entrei na Academia de Amadores de Música e no Hot Clube, praticamente em simultâneo.
O que te levou a escolher a bateria, como opção profissional no âmbito do jazz, já que noutros contextos continuas a tocar piano?
Acho que sempre foi, realmente, o meu instrumento. O piano continua a ajudar-me bastante na composição, actividade que abandonei, curiosamente, após concluir a respectiva licenciatura (composição) mas que retomei recentemente e que pretendo intensificar daqui para a frente.
No teu percurso de formação passaste pela Academia de Amadores de Música, pela Escola de Jazz do Hot Clube de Portugal, pelo Conservatório Nacional (Eurico Carrapatoso e Jorge Peixinho), e pela Escola Superior de Música de Lisboa (Christopher Bochmann e António Pinho Vargas).... O que guardas de tantas experiências certamente enriquecedoras?
Penso que quando se está na música se deve vê-la como um todo. As várias abordagens enriqueceram muito a minha cultura musical. Não gosto de me cingir a uma ou duas áreas. Tento ter uma visão mais abrangente. Ouço de tudo!
Em finais do ano passado, concluíste o Mestrado em Etnomusicologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa sob a orientação de Salwa Castelo-Branco, no qual te debruçaste sobre o cante alentejano. O que te liga a este universo? Quais as principais conclusões que retiras deste teu estudo?
Tenho costela alentejana. Um dos principais focos de análise do meu trabalho foi verificar a enorma resistência do cante ao factor tempo e a todas as transformações sociais verificadas na região, principalmente no pós 25 de Abril, resistência essa assente na busca de uma autenticidade ancorada na ideia de antiguidade, renegando toda e qualquer influência exterior ao passado do grupo, não só ao nível do cante, em si mesmo, mas de toda uma imagem etnográfica que inclui elementos como o traje de ceifeiro. Por outro lado, o contacto com o cante alentajano fez-me regressar ao tempo em que tocava sem nunca ter estudado música e fazia tudo de forma exclusivamente intuitiva. Foi muito gratificante ter tido contacto com pessoas que fazem música de uma forma tão simples e inocente. Para além disso fiz grandes amizades, das verdadeiras.
Continuas a leccionar, és um dos fundadores da Escola de Jazz do Barreiro, onde ocupas o cargo de Director Pedagógico. Como encaras a actividade docente, sabendo que ela ocupa uma grande fatia do teu tempo?
Tento equilibrar as coisas da melhor maneira. Consigo distribuir a carga lectiva com o facto de ter que estudar bateria. Orgulho-me muito da fundação da Escola de Jazz do Barreiro. Sem dúvida que colocou o Barreiro no mapa do jazz em Portugal. Penso que foi a primeira escola a aparecer fora das duas grandes cidades do país.
O que pretendes transmitir aos teus alunos?
Tento transmitir-lhe a ideia de que devem ter uma visão abrangente da música. É óbvio que, tendo em conta que estamos a afalar de uma escola de jazz, é esse o ponto de partida.
Ao longo da tua actividade como músico profissional, tens trabalhado em diferentes domínios, da música erudita (na Camerata Musical do Barreiro, como pianista), do rock, passando pelo blues (Old Blues Band), bossa-nova, samba mas, principalmente, no jazz. A música para ti não tem fronteiras?
A participação na Camerata foi algo passageira e pouco significativa. Uma espécie de namoro na adolescência. Digamos que não me entusiasmou muito. Quanto ao trabalho como baterista, pretendo intensificá-lo cada vez mais. Reconheço que o adiei por algumas causas (como por exemplo com os estudos académicos) mas penso que daqui para a frente me vou sentir, essencialmente, como 'baterista'.
Quais as tuas principais referências musicais? Quem são os faróis inspiradores?
Depende das áreas. No campo da música erudita identifico-me bastante com Bartók, Messiaen, Bach, Mompou, Stravinsky... compositores ritmicamente fortes e pouco convencionais. No rock/pop a minha banda de eleição é Divine Comedy. Ouço muito música tradicional, de vários países. Interesso-me cada vez mais pelas nossas raízes. Ao nível de bateristas, os que mais me influencioaram durante o período que estudei no Hot foram Elvin Jones e Philly Joe Jones. Aprecio muito a forma de tocar de Jordy Rossi, Jeff Ballard, Brian Blade, Jeff Watts, Bill Stewart... e muitos outros.
Como te posicionas na recorrente questão improvisação vs. swing, que tanta tinta tem feito correr? Qual vertente tem, para ti, mais peso?
No meu ponto de vista a questão do swing é primordial. 'Swing' num sentido muito lato...
O que ouves habitualmente? Jazz?
Ouço de tudo. Talvez Jazz seja neste momento a música que ouço mais, mas tenho fases. Às vezes ando mais virado para o rock. Mas sempre vários estilos em simultâneo.
Consideras-te um músico de jazz, ou essa definição é algo redutora?
É bastante redutora. Evito os rótulos. Mas o jazz é normalmente o ponto de partida para a música que faço.
Em termos estéticos, e no que concerne ao jazz, como te defines?
Tento fazer coisas que fujam ao convencional. Acima de tudo, tento fazer a minha própria música e criar o meu próprio estilo, o que nem sempre é fácil. Quando damos por nós estamos, mesmo que inconscientemente, a fugir para algo que está próximo de alguma coisa que já conhecemos. Acho que isto é inevitável, a até saudável.
Fundaste recentemente um quarteto teu, com o Mário Delgado, o Júlio Resende e o João Custódio. Porquê tanto tempo até seres líder de uma formação tua?
Sinceramente, por timidez. Muitas vezes os bateristas acomodam-se na posição de 'sideman'. Contudo, atendendo à minha formação, decidi criar uma banda minha e achei que era o momento certo. Convidei três dos músicos portugueses com que mais me identifico mas pretendo estender a participação a outros.
Tocam originais teus e dos outros elementos do grupo? Qual a linha estética do quarteto?
Não sei se haverá uma linha estética definida. Escolhi os músicos com que mais me identifico em Portugal. Todos contribuem para um bolo do qual o resultado me agrada bastante.
Há planos para gravar ou é demasiado cedo?
Penso gravar o quarteto. Vou deixar passar o verão e depois decidirei o que fazer.
Que outros projectos integras actualmente?
Integro projectos de tudo e mais alguma coisa. Trabalho como freelancer em formações ocasionais. Continuo a trabalhar ocasionalmente com o Hugo Alves, com o qual gravei 2 cd's, trabalhos de que bastante me orgulho. Como músico fixo, integro o quinteto da cantora Angelina, o quarteto 'The Tree At The Top Of The Hill' com três elementos ligados à Escola de Jazz do Barreiro, e trabalho também na área do Blues (Old Blues Band) e da música tradicional (Vid'Airada). Há pouco tempo ressuscitei uma banda pop com que toquei vários anos. Ideias e projectos não me faltam. Gosto desta simultaneidade de estilos porque sinto que me abrem os horizontes musicais. Fazem com que me mantenha em contacto com diferentes influências e conheça outras formas de viver a música.
Como analisas o actual panorama do jazz em Portugal?
Há músicos com grande nível mas, por serem portugueses, não conseguem o reconhecimento internacional que lhes seria devido. Por outro lado, reconheço também que para um novo músico não seja muito fácil integrar-se num circuito que continua a ser muito fechado. Encontramos diferentes bandas em que apenas muda o nome do seu líder. Apesar de haver muito mais músicos do que quando comecei a estudar continua haver pouca oferta também ao nível de sítios para tocar e os que existem, muitas vezes, oferecem condições indignas para um músico profissional. Há um aspecto positivo que é o facto de haver festivais espalhados por todo o país e que faz despertar o interesse de novos públicos. Uma prova disso é o número crescente de escolas de jazz.
Quais serão teus os passos seguintes?
Continuar a compor, integrar diferentes projectos e gravar o quarteto. Gostava de experimentar fazer música para cinema. Tenho bastante curiosidade e vontade de o fazer.
O significa para ti a música?
É um prazer mas também um desafio. Tenta-se sempre chegar mais longe e a coisas novas. É um processo em constante mutação. É essa capacidade que a música tem, de querer atingir o 'inalcançável' e algo que mexa de tão diferentes formas com os sentimentos que a torna tão atrente e viciante!
[Entrevista de base para a elaboração do Perfil de Jorge Moniz publicado no n.º 21 da revista Jazz.pt (Novembo/Dezembro 08)]
Publicado por António Branco às dezembro 3, 2008 06:23 AM
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