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Miguel Martins (© Alexandre Simões)
“Temos de estar abertos e não nos limitarmos a um só estilo, mas criar um próprio”. Quem o diz é o guitarrista Miguel Martins, que no final de 2007 lançou “The Newcomer”, o disco de estreia do seu projecto Kaleidoscópio. O Improvisos Ao Sul foi ao seu encontro.
O teu novo disco – “The Newcomer” - mostra um músico amadurecido, que sabe o que quer... Como te posicionas esteticamente, enquanto músico e compositor?
A minha posição é a do presente. Ao longo do meu percurso estudei música ocidental do passado, a qual me deu as bases para reflectir sobre a música do presente. Penso que a musica tem a sua posição no espaço, mas no tempo é mais difícil visto ser algo supremo e eterno. As influências passadas para a construção de estéticas actuais é necessário, pois só conhecendo o passado se pode reflectir sobre o presente e futuro. Tento estar actualizado das novas correntes do jazz e da música no geral, mas sempre com um sentido de liberdade de criação, não me pondo obstáculos.
Mas preocupam-te os rótulos estilísticos ou isso não constitui para ti qualquer barreira?
Não me constitui qualquer barreira. Gosto de toda boa música, honesta, orgânica, original, com mensagem, livre de preconceitos sem truques circenses de virtuosismos técnicos. Não gosto de clãs musicais ou capelas do mainstream, free jazz, fusion, nu-jazz, free bop etc. Penso que temos de estar abertos e não limitar-nos a um só estilo, mas criar um próprio.
Parece-me haver, na tua música, uma forte de ligação com a tradição jazzística, no melhor sentido da expressão... Concordas? Quais as tuas principais referências (nacionais e internacionais)?
Sim. Estudei muitos anos a tradição jazzistica e contínuo a estudar. Só conhecendo muito bem a tradição é que se pode tocar moderno. Se vais ouvir o Eric Dolphy, ele soa actual até hoje, e tinha todos os conhecimentos da tradição! À que conhecer a tradição, saber quebrar esta e criar algo novo. Neste meu disco existe o respeito pela tradição mas não é um disco tradicional, mas sim moderno, quebrando a tradição com todo o respeito claro!
O disco tem o selo da Klimaxrecords. Que editora é esta?
A Klimaxrecords é uma editora recente, funda por várias pessoas onde me incluo e esta sedeada no Algarve. Está a dar os seus primeiros passos, sem grandes ambições e com muita descontracção neste mundo dos discos.
Apresenta-nos, sucintamente, os temas do novo disco, todos da tua autoria...
Este disco “The Newcomer” tem 8 faixas que representam um pouco da minha vida e experiências. Alguns temas são dedicatórias a pessoas que marcaram a minha vida pelo amor e admiração como “Apolo (to my brother)”, “Last call to Lisbon-Horta”, “Raimund’s Groove”, “An elefant in a chinese store”. Outros como “Four Beers”, “Kaleidoscópio”, “Broken Tou”, foram esteticamente compostos pela paisagem sonora que buscava dentro do meu íntimo. Por ultimo,”Ventos Sul” é um tema dedicado e inspirado nas gentes e sítios do Algarve de onde sou originário.
Acompanham-te Carlos Barretto, "monstro" do jazz luso e Markku Ounaskari. Como convidado especial surge o trompetista Hugo Alves, também ele algarvio. Como é trabalhar com eles? Como surgiu a oportunidade de trabalharem juntos?
Trabalhar com o Carlos Barretto é um prazer único. Tocamos juntos há 4 anos com o “Kaleidoscópio” e sinto-me muito confortável com ele. Músico que sempre admirei, desde de tenra idade e pessoa de quem tenho grande respeito. O Markku Ounaskari conheci-o em Espanha no Festival de jazz de Sevilha, tocava-mos juntos no grupo do saxofonista andaluz António Mesa. A cumplicidade musical e humana foi inevitável e juntos com o Carlos Barretto fizemos vários festivais como o Paredes de Coura “jazz na Relva” 2005 etc. Actualmente, derivado a questões de agenda e indisponibilidade do Markku Ounaskari, na bateria do “Kaleidoscópio” está um grande senhor da música portuguesa, que tenho o privilégio de tocar, o José Salgueiro. Em relação ao Hugo Alves, a nossa história musical remonta a 1995. Tocámos juntos vários anos e penso que a sua participação no disco conta também a minha história na qual ele foi bastante importante.
Tens "rodado" muito o novo disco ao vivo? Como tem corrido?
O disco “The newcomer” foi lançado dia 7 de Novembro de 2007 na discoteca LUX inserido no Lux Jazz Sessions. Desde então que o disco está a ser apresentado e a agenda para 2008 está a ser preenchida.Tivemos em Espanha a apresentar o disco (que vai ser distribuído em Espanha) no Festival de jazz de Gibraleon “Jazz Olontia”, e vamos estar em 2008 no Festival de jazz de Dos Hermanas em Sevilha, Festival de jazz de Valado de Frades, etc.
Colocando improvisação e composição nos pratos de uma balança imaginária, qual pesa mais no teu processo criativo?
A improvisação. Esta é a magia do momento, onde estás nu, onde estás na corda bamba, na ponta da naifa, onde és livre... A composição é o tema, a mensagem, a base, o pano, a tela, ideias que vêm das improvisações, mas a arte está na improvisação. Foi esta disciplina que me apaixonou na música e mais especificamente no jazz.
Nasceste em Faro, mas, ao contrário de outros músicos algarvios, decidiste partir... Achas que se tivesses ficado no Algarve o teu percurso teria sido, de alguma forma, diferente?
Sim. Comecei a tocar jazz em 1995, e nessa altura toquei em vários festivais no Algarve como Loulé, Faro, Portimão. E no Festival de Loulé onde fazia as jam sessions e aí toquei com David Sanchez, António Sanchez, Andrei Olenijake, Carlos Barretto , Bernardo Sasseti, Alexandre Frazão, Jesus Santandreu, Perico Sambeat, Franco Ambrosseti, enfim… todos os anos tinha acesso a tocar com excelentes músicos. De resto tocava com os músicos locais, que não eram portugueses mas sim brasileiros ou ingleses como o Paulinho Lemos, Toniko Goulart, Matt Lester, Sávio Àraujo etc. Quando mudei para Lisboa já tinha alguma experiência e anos de estrada, em LX as coisas aconteceram naturalmente, mas senti que a evolução musical foi mais rápida.
Actualmente estou a viver em Barcelona e estou a gostar bastante.
Quais foram os motivos que te levaram a mudares-te para Barcelona?
Os motivos foram vários. Fiquei apaixonado pela cidade quando estive lá pela primeira vez, não só pela questão turística de visitar as principais atracções mas as questões musicais também. Em Barcelona tocas todas as noites, há jams todos os dias, muitos músicos, muitos clubes, muita “movida”, muita arte e cultura nas pessoas, etc. Fiz lá um par de concertos com músicos como Paulinho Lemos, Alejandro Luzardo, Masa Kamaguchi, Munir Huss, Mariano Steimberg, Dani Domingez etc…Vou continuar por lá para evoluir como musico e pessoa mas sempre vindo a Portugal para tocar e comer bem claro!
Em Portugal, há imensos guitarristas de jazz, e a qualidade é muito aceitável…
Em todo lado há guitarristas de jazz. Penso que não é só em Portugal que há muitos, em Barcelona há imensos, Paris, Nova Iorque, etc. A razão social deste facto é o fácil acesso monetário ao instrumento e a cultura. No Brasil toda a gente toca um pouco de violão. Em Espanha na Andaluzia toda a gente toca um pouco de guitarra flamenca, etc. Penso que existem muitos músicos a tocar guitarra mas poucos a tocar música!
Estás actualmente envolvido noutros projectos?
Sim. Faço parte do “World Trio”. Com o talentoso acordeonista algarvio campeão do mundo de acordeão em 2001, o João Frade, com o qual tive a tocar em Barcelona no, Jamboree e Club MIX, e com um excelente baterista brasileiro que já residente em Portugal há alguns anos, o Paulo Rosa.
Em tua opinião, como está o jazz em Portugal?
Quando se fala de jazz em Portugal as pessoas só conhecem 4 a 5 nomes. Isto é grave. Existem muitos mais músicos, com muitos anos de carreira, com discos editados, que só quem está por dentro da cena jazzistica portuguesa conhece. Fala-se que há mais festivais, as pessoas já ouvem falar de jazz, mas ouvem sempre falar das mesmas e nos festivais e concertos de Câmaras vão sempre os mesmos. O jazz português e os músicos portugueses não são conhecidos na Europa ou nos US. Os estrangeiros vêem cá fazer os festivais onde em alguns não há uma banda portuguesa. Só existem 2 ou 3 produtores de jazz em condições que promovem esta música e músicos nacionais. Todos os clubes de jazz sobrevivem com dificuldades, viver do jazz é sobreviver com dificuldades, eu vivo do jazz!!!!
Como vai ser daqui para frente? Já tens novas ideias a fervilhar na cabeça?
Daqui para frente quero tocar, estudar e compor muito. Penso gravar outro disco em 2009 com o projecto “Kaleidoscópio” com o Barretto e o Salgueiro. Depois de Barcelona, ir viver para Berlim…
Nota: [Entrevista de base para o Perfil de Miguel Martins, publicado no n.º 17 da revista Jazz.pt (Mar/Abr 08)]
Publicado por António Branco às abril 8, 2008 05:46 AM
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