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novembro 27, 2007

LIVE AT THE MONTEREY JAZZ FESTIVAL

Em 2008, o festival de jazz de Monterey completa 50 anos de existência. Com o propósito de recordar actuações de nomes históricos no prestigiado festival californiano, a Monterey Jazz Festival Records lançou recentemente gravações inéditas ao vivo de Louis Armstrong, Miles Davis, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk e Sarah Vaughan.

Os amantes do jazz da Bay Area de São Francisco não escondiam as suas dúvidas quando ouviam dizer que o promotor Jimmy Lyons estaria a preparar um festival de jazz para ter lugar em Monterey. Seria possível realizar naquela solarenga e pacata cidade californiana um evento capaz de rivalizar com o de Newport, em Rhode Island, organizado por George Wein e inaugurado quatro anos antes? Lyons, ajudado pelo escritor e crítico de jazz Ralph J. Gleason e por um punhado de músicos e empresários locais, provou que sim. A ideia era que Monterey se afirmasse como um contraponto a Newport, apostando em trunfos como a apresentação de novos músicos e de novas formações. A primeira edição do Monterey Jazz Festival teve lugar em Outubro de 1958, há quase meio século. Desde então, ano após ano, Monterey cimentou a sua posição no panorama dos festivais norte-americanos de jazz, sendo hoje um dos mais prestigiados eventos jazzísticos nos Estados Unidos. A organização – através da Monterey Jazz Festival Records – lançou recentemente cinco discos com material inédito, que registam para a posteridade a passagem pelo festival de gigantes do jazz, até agora apenas na memória de quem e elas assistiu. A missão da editora passa por realçar o legado artístico e promover as metas educacionais do festival, através de gravações que documentam o passado histórico do mesmo. Os lucros obtidos com a venda destes CD´s são destinados a apoiar o seu programa educacional, centrado na formação de jovens músicos de jazz de todo o mundo. Os eleitos nesta primeira fornada são Louis Armstrong, Miles Davis, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk e Sarah Vaughan. Avancemos cronologicamente.

Louis Armstrong – “Live at the 1958 Monterey Jazz Festival”

Louis Armstrong – “Live at the 1958 Monterey Jazz Festival”
Louis Armstrong (trompete, voz); Trummy Young (trombone, voz); Peanuts Hucko (clarinete); Billy Kyle (piano); Mort Herbert (contrabaixo); Danny Barcelona (bateria); Velma Middleton (voz)
Data de gravação: 3 de Outubro de 1958

O primeiro dos discos agora lançados – o de Louis Armstrong – foi gravado na noite inaugural do festival, 3 de Outubro de 1958. Para essa mesma noite esteve igualmente prevista a actuação do lendário Sidney Bechet – Lyons tinha em mente um encontro histórico entre os dois músicos – mas tal não se veio a concretizar devido ao débil estado de saúde de Bechet. Dizzy Gillespie, investido no papel de mestre-de-cerimónias, apresenta Satchmo como “o maior, o rei”. Em pleno pico de popularidade, Armstrong – então a caminho dos 60 – apostou nos clássicos de sempre como “St. Louis Blues”, “Mack the Knife”, “When the Saints Go Marchin´ In” ou “Blueberry Hill” (recebida em euforia pelo público), virou-se também para ícones do swing (“Perdido”, “Stompin´ at the Savoy”), atacou uma versão supersónica de “Tiger Rag”. Fez-se acompanhar por uma formação que incluía um Billy Kyle em grande forma e um Michael “Peanuts” Hucko a soar como nunca (ouçam-no em “After You´ve Gone”).

Miles Davis Quintet – “Live at the 1963 Monterey Jazz Festival”

Miles Davis Quintet – “Live at the 1963 Monterey Jazz Festival”
Miles Davis (trompete); George Coleman (saxofone tenor); Herbie Hancock (piano); Ron Carter (contrabaixo); Tony Williams (bateria)
Data de gravação: 20 de Setembro de 1963

O segundo CD documenta a passagem pelo festival de Monterey – em 20 de Setembro de 1963 – do quinteto de Miles Davis, com George Coleman, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams, este último então apenas com dezasseis anos de idade. Após um período marcado pela estagnação criativa e pela dificuldade em manter um grupo estável – que se seguiu à rotura com John Coltrane –, e depois das negas de vários músicos, como Steve Kuhn e Victor Feldman, Miles apostou em jovens promissores, ainda pouco conhecidos, que pretendia moldar à sua imagem. Escusado será dizer que tal formato encaixava que nem uma luva no que Jimmy Lyons queria para o festival. Ao aquecimento (“Waiting for Miles”), juntam-se versões longas de standards bem conhecidos, que o trompetista gostava de retocar; “Autumn Leaves” (que inclui um notável solo de Ron Carter) e “Stella by Starlight” (delicadíssima balada, numa demonstração exemplar de todo o lirismo e contenção de Miles). Ouviram-se ainda o magnífico “So What” e “Walkin´”, em que Tony Williams se dava a conhecer ao mundo, com uma memorável prestação. A encerrar, “The Theme” evocou a magia da secção rítmica Kelly/Chambers/Cobb. Curiosa a não inclusão de “Milestones” (pelo menos no disco), tema que à época constituía um momento central nas actuações do quinteto.

Thelonious Monk – “Live at the 1964 Monterey Jazz Festival”

Thelonious Monk – “Live at the 1964 Monterey Jazz Festival”
Thelonious Monk (piano); Charlie Rouse (saxofone tenor); Steve Swallow (contrabaixo); Ben Riley (bateria); Buddy Collette (saxofone, flauta, direcção); Lou Blackburn (trombone); Jack Nimitz (saxofone barítono); Bobby Bryant (trompete); Melvin Moore (trompete)
Data de gravação: 20 de Setembro de 1964

Na noite de 20 de Setembro de 1964, Thelonious Monk – que também tinha tocado na edição do ano anterior – subiu ao palco de Monterey para um concerto inesquecível. Com o seu estilo muito peculiar, Monk continuava a dividir opiniões. Fora do palco era tímido e reservado; em cima dele, exuberante e intenso. Na ocasião, actuou em formato de quarteto, com Charlie Rouse (saxofone tenor), Steve Swallow (contrabaixo) e Ben Riley (bateria). Para o jovem Swallow, então no quarteto de Art Farmer – com quem tocou também nessa edição do festival – , foi um momento único, visto que, até então, nunca tivera tido qualquer contacto prévio com Monk (embora tivesse estudado a sua música) e, daí em diante, não mais viria a ter. O disco começa com “Blue Monk” – o pianista expõe o tema, até que Rouse dele se apodera com um pujante solo. Em “Evidence” está patente o pianismo borbulhante de Monk, mesmo que algo na sombra, fazendo contraponto aberto ao saxofonista. Em “Bright Mississippi” dá espaço ao contrabaixista, que rubrica um solo inspirado. “Rhythm-a-Ning” assenta mais uma vez nos jogos Monk-Rouse, com Riley a assegurar um tempo endiabrado. Nos últimos dois temas do disco (“Think Of One” e “Straight, No Chaser”) ao quarteto junta-se o Monterey Jazz Festival Workshop, com Bobby Bryant e Melvin Moore (trompete), Lou Blackburn (trombone), Jack Nimitz (saxofone barítono) e Buddy Collette (saxofone e flauta), que, a pedido de Monk, fez os arranjos, muito ao jeito de big band.
Dizzy Gillespie – “Live at the 1965 Monterey Jazz Festival”

Dizzy Gillespie – “Live at the 1965 Monterey Jazz Festival”
Dizzy Gillespie (trompete, voz); James Moody (flauta, saxofone tenor); Kenny Barron (piano); Christopher White (contrabaixo); Rudy Collins (bateria); Big Black (congas)
Data de gravação: 19 de Setembro de 1965

Dizzy Gillespie era presença habitual em Monterey. Lá tocou, imagine-se, em 19 ocasiões, marca que partilha com Clark Terry. Mesmo quando não integrava o cartaz do festival, era costume aparecer no palco e tocar com os músicos presentes. Quem lhe poderia resistir? O disco em mãos diz respeito à gravação efectuada a 19 de Setembro de 1965, na terceira noite de actuação da formação, a melhor, rezam as crónicas. Para a ocasião, Gillespie alargou o seu habitual quinteto para sexteto, com a inclusão de Big Back, nas congas. O grupo lança-se na interpretação do frenético “Trinidad, Goodbye”, da autoria do pianista Kenny Barron, de onde se destaca o excelente solo de James Moody no tenor, a que se segue uma inspirada intervenção do líder, com o contrabaixista Christopher White e o baterista Rudy Collins a assegurar a base rítmica ideal. Gillespie dedica a balada “Day After” a Billie Holiday, tocando de forma livre e relaxada, demonstrando total confiança na banda que o acompanha. O lado de “entertainer” surge com o calypso bem-humorado de “Poor Joe” e depois com o “Dizzy´s Comedy Sketch”, que leva o público ao delírio. Estava a jogar em casa. Segue-se uma versão formidável de “A Night In Tunisia” (antecedida de referências à situação política que então se vivia no Norte de África), com Moody na flauta, Collins e Black a garantir uma vibração irresistível. Dizzy também está verdadeiramente brilhante, oferecendo uma nova perspectiva sobre um dos temas mais emblemáticos do seu repertório. “Ungawa” traz o perfume das Caraíbas e a breve rendição a “Chega de Saudade (No More Blues)” (da dupla Jobim/Moraes), que encerra o disco, reitera a paixão de Gillespie pela música do Brasil. Nota negativa para a deficiente qualidade da gravação, com altos e baixos, e com a proeminência, algo maçadora, das congas, a arreliar a atenta audição dos restantes instrumentos.

Sarah Vaughan – “Live at the 1971 Monterey Jazz Festival”

Sarah Vaughan – “Live at the 1971 Monterey Jazz Festival”
Sarah Vaughan (voz); Bill Mays (piano); Bob Magnusson (contrabaixo); Jimmy Cobb (bateria); Jazz at the Philharmonic All-Stars: Bill Harris (trombone); Roy Eldridge (trompete); Clark Terry (fliscórnio, voz); Eddie “Lockjaw” Davis (saxofone tenor); Zoot Sims (saxofone tenor); Benny Carter (saxofone alto); Mundell Love (contrabaixo); John Lewis (piano); Louie Bellson (bateria)
Data de gravação: 19 de Setembro de 1971

Na última noite da 14ª edição do festival de jazz de Monterey, em 1971, a estrela maior era Sarah Vaughan, então em plena meia-idade. Mas o programa incluía ainda outro motivo de interesse: o regresso do Jazz At The Philharmonic (JATP), projecto itinerante criado por Norman Granz que reuniu estrelas do jazz entre 1944 e 1957. Gerador de expectativa adicional era o facto de Sassy nunca ter participado no JATP – apesar de ter gravado amiúde para Granz – aguardando-se que algo especial resultasse daquela tardia reunião. Apresentada pelo próprio Norman Granz, Sarah Vaughan – ainda na plenitude das suas capacidades vocais – fez-se acompanhar pelo pianista Bill Mays, o contrabaixista Bob Magnusson e o baterista Jimmy Cobb. Começou com o histórico “I Remember You”, em toada lenta, com uma voz mais profunda e grave do que nos alvores da carreira. Prosseguiu demonstrando a sua notável abrangência vocal, em temas como “The Lamp Is Low”, “´Round Midnight” e “There Will Never Be Another You”. Curiosa a transformação jazzística de “And I Love Her”, da dupla Lennon/McCartney, em “And I Love Him”. A imaginação de “Scattin´ The Blues” aproxima-a do universo de Ella. Para o final em apoteose, sobe ao palco uma verdadeira constelação – Benny Carter, Roy Eldridge, Clark Terry, Bill Harris, Eddie “Lockjaw” Davis, Zoot Sims, Mundell Love, John Lewis e Louie Bellson – para uma longa “Monterey Jam”.

Publicado por António Branco às novembro 27, 2007 06:34 AM

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