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João Moreira
Diz que procura "fugir à música que nos obriga a tocar de uma determinada forma, já definida e cristalizada, como uma camisa-de-forças que nos constrange os movimentos". Nascido em berço de jazz, João Moreira é um músico em busca de si próprio. Fomos ao seu encontro.
Nasceu em Lisboa, em 1970. É sabido que a música, em concreto o jazz, entrou na sua vida desde bastante cedo… Quer falar-nos um pouco do que guarda desses primeiros contactos com o jazz?
O meu primeiro contacto com o jazz surge como seria de esperar pela mão do meu pai, que foi músico amador, e que tinha em casa uma boa colecção de discos de jazz. Eu e os meus irmãos ouvíamos o mesmo que todos os miúdos da nossa idade, e que era sobretudo rock e punk. O nosso pai nunca interferiu com o que nós ouvíamos desde que ele não tivesse de ouvir... Era frequente nós tentarmos fazer com que ele ouvisse os nossos discos e a cada vez, acabava ele por nos mostrar um dos seus discos de jazz. O que é facto é que lentamente nos fomos deixando conquistar por esta música e gradualmente acabámos todos por substituir a audição do nosso rock pelo jazz.
Começou a estudar trompete aos 11 anos de idade. O que motivou a escolha deste instrumento?
Desde cedo, com 9 ou 10 anos, que ao ouvir música eu me deixava absorver por completo pelo que ouvia, frequentemente imaginando que era um dos músicos no disco. Coincide nesta fase começar a ouvir com mais atenção alguns discos do Charlie Parker com o Dizzy Gillespie e no meu mundo imaginado eu era... o trompetista, claro, que fazia aqueles solos incríveis e que levava ao rubro as salas, nomeadamente no célebre concerto ao vivo em Toronto, no Massey Hall. A minha identificação com o trompete é algo que não foi consciente mas que foi imediata. Assim, quando me decidi a começar a estudar, o meu instrumento já estava escolhido há muito.
Quais são as suas maiores referências em termos de trompetistas?
Eu passei por diferentes fases e fui descobrindo diferentes trompetistas que me foram influenciando duma forma ou doutra. No início ouvia muito o Dizzy Gillespie que era um trompetista exuberante por um lado mas subtil por outro. A sua forma de tocar era inatingível para um principiante tanto em termos técnicos como em termos harmónicos. Ao mesmo tempo ouvia o Miles Davis cuja abordagem trompetística era muito mais acessível embora o seu conceito fosse mais abstracto. Miles é sem dúvida a minha primeira grande influência. Mas, à medida que me fui desenvolvendo como trompetista, procurei também a tal exuberância trompetística que me havia fascinado em Dizzy, e que agora estaria já mais acessível. Aí fui assumidamente no caminho do Freddie Hubbard, que resume a meu vêr a linha de trompetistas que vai do Dizzy ao Clifford Brown e ao Lee Morgan (todos trompetistas que ouvi e estudei bastante, também). Assim, Freddie Hubbard fica como segunda grande influência. Ao mesmo tempo oiço com grande atenção e admiração o Chet Baker que é um dos trompetistas mais intensos e líricos da história. Chet fica para mim um exemplo no que toca ao espírito com que se deve tocar. Já nos anos 80 surge o Wynton Marsalis que ouvi com muita atenção também, pelo menos enquanto ele inovou e se manteve interessante. Não me influenciou directamente como trompetista mas foi alguém cujo conceito harmónico e composicional me marcou muito naquela década. Mais influenciado fui pelo Terence Blanchard cuja forma de tocar me conquistou desde o início com o Art Blakey, e mais ainda com o seu quinteto com Donald Harrison. Terence será a minha terceira grande influencia na minha fase "mainstream". A minha ida para Nova Iorque acaba por ser o que marca uma profunda transformação em mim como músico pois no meu regresso corto quase completamente com a linguagem do Jazz mainstream norte-americano e começo a procurar uma linguagem musical mais aberta, algo que sempre esteve em mim mas que se manifestava de forma pouco assumida. Começo finalmente a perceber e a aceitar a minha identidade como músico oriundo duma cultura europeia e começo a estudar o Jazz europeu quase como quem regressa ao início... Desta fase ganha destaque o Kenny Wheeler que se revela ser um trompetista verdadeiramente incrível a todos os níveis, como músico interprete, como compositor, como trompetista virtuoso que é mas também com uma subtileza imensa na sua forma de tocar. Outro nome que surge e que lhe é indissociável é o de John Taylor, apesar de ser pianista e não trompetista. Outro trompetista que merece destaque é o Dave Douglas que escreve e toca música sempre interessante e nova. Gosto particularmente dos seus projectos mais vanguardistas ou com formações menos óbvias. Tocar trompete pede um equilíbrio difícil entre contenção e exuberância trompetística, sendo que a profundidade musical tem que estar sempre presente. Ouvi sempre os trompetistas subtis e também os exuberantes, mas à medida que fui crescendo diria que me fui concentrando mais nos subtis. Para mim, da linguagem jazzística americana fica o Miles Davis e da europeia o Kenny Wheeler.
Em 1999, em Nova Iorque, licenciou-se em "Jazz e Música Contemporânea", na New School for Social Research, tendo estudado contraponto, teoria atonal e composição. Que mais-valias é que considera que esta experiência lhe proporcionou?
Estive 3 anos em Nova Iorque e esse foi para mim um período de amadurecimento em muitos aspectos, pessoais e musicais. No meu exame de admissão dispensei a todas as cadeiras obrigatórias, que vão desde cadeiras teóricas de harmonia a cadeiras praticas de instrumento, passando pelo treino auditivo, etc. Fiquei então livre para escolher as cadeiras opcionais que quisesse. Aproveitei para aprofundar os meus conhecimentos de teoria clássica (uma vez que tinha dispensado às de jazz...) e estudei contraponto e teoria atonal. Ambas se revelaram importantes do ponto de vista auditivo. Eu toquei sempre de ouvido como bom autodidacta, e aprendi muito sobre o significado do que se ouve com o contraponto. Ganhei respeito pela dissonância e pelo correcto tratamento da mesma. O músico de Jazz está (mal) habituado a tocar qualquer dissonância em qualquer contexto e pode correr o risco de estar a banalizar essa dissonância ou de recorrer a ela sem sequer se aperceber. O contraponto ensina-nos a tratar a dissonância com uma atenção muito especial e isso ajudou-me a tornar-me mais subtil, eliminando agora (porque as identificava) utilizações gratuitas da dissonância. Tornei-me mais maduro. A teoria atonal pôs-me em contacto com uma linguagem da qual tinha apenas uma ideia feita. Descobri um mundo fascinante depois de "limpar" o ouvido dos preconceitos tonais. Ouvimos música tonal desde que nascemos e o nosso ouvido reage um pouco contra os sons que lhe parecem desorganizados. Claro que a música atonal é possivelmente ainda mais estruturada e organizada do que a música tonal, e só com algum tempo de exposição à música atonal é que começamos a entrar verdadeiramente nesse mundo. Uma coisa é certa, um ouvido preconceituoso nunca gostará de música atonal e eu sentia-me agora livre desses preconceitos.
Do seu percurso académico ressalta igualmente o facto de ter estudado, entre muitos outros, com Charles Tolliver e Jimmy Owens. Como foi a sua relação com estes dois "monstros"?
Jimmy Owens foi alguém que me ajudou muito no plano técnico. Fui para Nova Iorque depois de estar impedido de tocar por 5 anos devido a um problema de pele no lábio (e que ainda hoje me persegue...). Recuperar duma paragem tão longa é demorado e delicado pois se fôr feito algum esforço antes de tempo podemos estar a comprometer uma boa recuperação. Jimmy Owens é um excelente trompetista e foi uma ajuda preciosa neste processo. Charles Tolliver foi uma grande inspiração no plano musical pois é um grande trompetista, compositor e interprete. Sempre bem disposto mas muito exigente e dificilmente impressionável. Charles Tolliver situa-se vagamente entre um Freddie Hubbard e um Woody Shaw embora com um cunho próprio muito forte. As aulas que tive com Charles Tolliver muitas vezes se resumiam a ele fazer um café bem forte e falar sobre o tempo em que tocava com o grande Art Blakey. Pode não parecer mas estas eram grandes aulas de trompete. Aprendi muito só por observar a sua maneira de estar e de falar, e também a ouvi-lo tocar nas suas aulas de combo e big band que também frequentei. Nunca me deu um exercício que fosse, mas inspirou-me muito no meu estudo do trompete e do Jazz. Estudei também com Cecil Bridgewater, outro "monstro" do Jazz e do trompete. Com Cecil explorei melhor o free Jazz e um certo experimentalismo, o que me ajudou a conhecer-me melhor como músico, tanto nas potencialidades como nas limitações. Gostei particularmente da ideia de poder tocar de uma forma que não estivesse definida de antemão.
Desde que regressou a Portugal, depois da experiência americana, tem dedicado uma importante parte da sua actividade profissional à docência. O que o atrai na actividade docente? Quais as principais mensagens que procura transmitir aos seus alunos?
Desde cedo comecei a dar aulas e tendo sido autodidacta, posso dizer que dar aulas foi para mim também uma forma de aprender. Aquilo que sempre tentei passar aos meus alunos foi o meu entusiasmo por esta música. O gosto pelo que se estuda é a verdadeira força motriz do trabalho necessário para se chegar a tocar. Digo aos meus alunos que não façam cedências e vão atrás daquilo que gostam. Não lhes imponho um estilo musical nem uma direcção mas procuro ajudá-los a encontrar essa direcção. Depois é trabalhar duro. Outra preocupação minha é alertar para os perigos da escola e que são essencialmente dois. O primeiro é a apatia do aluno que julga que só por estar inscrito já vai vêr os seus problemas resolvidos. A escola pode encurtar distâncias mas é sempre o próprio a resolver os seus problemas, explorando e descobrindo quase como o autodidacta, e isto implica iniciativa e trabalho. O segundo é mais grave ainda e é a possibilidade do aluno se desenvolver num músico mecânico que toca por padrões ou frases já feitas daquelas que se encontram em manuais. O estudo de padrões serve um propósito específico e que às vezes é confundido com o da construção de fraseado para se tocar. Ser mecânico é provavelmente a última coisa que um músico deve ser...
Contrariamente ao que se passa com outros instrumentos, não há assim tantos jovens trompetistas a surgir no panorama do jazz nacional… Em seu entender, a que se ficará a dever esta situação?
Essa é uma questão que me intriga desde sempre. É verdade que surgem poucos alunos para trompete mas mais dramático é o facto de na maior parte dos casos eles não conseguirem passar do nível básico, no qual se conseguem manter durante anos! Aquilo que eu constato é que há dois tipos de trompetista. O tipo confiante e o tipo derrotado psicologicamente. Tocar trompete é uma luta com o instrumento e se não o dominarmos somos derrotados sem contemplações. O trompete é um instrumento particular no sentido em que é dos instrumento que mais rapidamente põe cá fora o que vai dentro daquele que o toca. Não há lugar a inseguranças quando se pega num trompete pois se elas existirem é apenas isso que se ouve... O músico no início é naturalmente inseguro e no caso do trompete isso pode ser fatal.
Como se posiciona esteticamente, enquanto músico? Qual é o peso da "tradição" na sua personalidade musical?
Nunca procurei definir-me esteticamente como músico e nem sei se conseguiria fazê-lo... gosto de pensar que sou um músico de jazz, mas não necessariamente dum estilo de jazz ou de outro. Passei muitos anos da minha vida próximo da linguagem tradicional para que isso não pese na minha personalidade musical, mas neste momento apetece-me muito mais explorar linguagens musicais mais abertas e abrangentes porque aí podemos encontrar todas as outras duma forma ou doutra. Não cortei com a tradição, cortei com a mentalidade fechada (que nunca tive, acho) e com as linguagens formatadas porque são limitativas e impedem que o músico seja criativo.
Sente alguma afinidade, por exemplo, com as novas correntes do jazz vindas do norte da Europa?
Sim, sinto afinidade com o que quer que seja fresco e interessante. Procuro fugir à música que nos obriga a tocar duma determinada forma já definida e cristalizada, como uma camisa de forças que nos constrange os movimentos.
Integra um conjunto de projectos diferentes, o que é demonstrativo do seu ecletismo enquanto instrumentista. Considera-se um músico versátil?
Não poria a questão em termos de versatilidade. Ser versátil é conseguir fazer coisas diferentes. Procuro fazer uma só coisa e que é tocar com um espírito aberto. Se eu conseguir tocar com um espírito aberto e sem preconceitos, estando receptivo à linguagem que me é proposta, posso talvez entrar nessa linguagem e procurar jogar com ela, explorando o que ela tenha para oferecer. Para usar uma imagem taoísta, a água não tem forma, mas ganha a forma do objecto que a contém... Interesso-me muito pelo taoismo e julgo haver grandes afinidades entre a ideia taoista de acção pela não acção e o improviso no jazz. Se soubermos não impôr e conseguirmos deixar a musica seguir o seu curso quando a tocamos, podemos tocar diferentes linguagens com a mesma ideia de ser apenas musical.
Em alguns desses projectos tem "acoplado" efeitos ao seu trompete. Sente-se atraído pelas electrónicas? Pensa explorar mais esta veia?
Absolutamente. Sempre me senti atraído pelas electrónicas. Quando senti a necessidade de mudar de orientação musical, no meu regresso de Nova Iorque, a electrónica teve um papel fulcral porque não é fácil mudar assim de um dia para o outro. Eu estava cansado de me ouvir e de vêr surgir sempre as mesmas coisas. O pedal de efeitos foi uma lufada de ar fresco pois com os efeitos, automaticamente pude tocar de forma mais aberta e construir um discurso musical novo. Tenho vindo a desenvolver uma forma de tocar intimamente ligada aos efeitos que uso. Procuro a fusão do trompete com os efeitos para que sejam um só. Por vezes perguntam-me como fiz um determinado efeito e na minha resposta constato que nesse caso específico nem tinha usado o pedal... gosto disso porque me faz perceber que o meu discurso está a mudar. Essa mudança passou em grande parte pelo uso das electrónicas.
E para quando um disco do João Moreira líder? Não tem sido uma prioridade? Mas está nos seus planos?
Está nos meus planos e começa a ser verdadeiramente uma prioridade. Preciso no entanto de seguir alguns passos pois não quero gravar só por gravar. Gravar é duma importância estratégica para uma carreira. Mas não quero gravar só por essa razão. Nunca me preocupei com a estratégia atrás da carreira e pago com certeza essa factura. Sempre me preocupei mais com o poder desenvolver-me enquanto músico, ouvindo e estudando, e vou procurar manter sempre essa ideia de desenvolvimento até ao fim dos meus dias. Tenho medo de estagnar. Senti isso uma vez e o resultado foi cortar com a linguagem que me estava a prender e me impedia de me manter criativo. Ouvi e estudei sempre a música de outros músicos e compositores e não sinto que haja nada de errado com isso, mas começo de facto a sentir a necessidade de me voltar para mim, ouvindo agora o que quer que encontre cá dentro e dando voz a isso. Compôr não me é fácil, tenho algumas composições da minha fase "mainstream" que toquei e gostei de tocar mas com as quais não me identifico neste momento. Começo agora a compreender melhor a linguagem que pretendo explorar e comecei já a escrever alguma coisa. Para voltar aos passos que pretendo seguir, depois de completados alguns temas, poderei liderar o meu grupo e finalmente gravar. Muita gente me tem perguntado "para quando um disco?"... uma vez, depois de trabalhar uma semana com Kenny Wheeler (que dirigiu a Orquestra do Festival de Guimarães onde eu tocava), e quando se despedia, o Kenny Wheeler perguntou-me se não podia levar discos meus consigo para ouvir. Escusado será dizer que foi envergonhado que lhe respondi que não tinha discos gravados. Por outro lado fiquei lisonjeado e senti isto como um grande incentivo para de facto me concentrar em desenvolver um projecto e gravá-lo.
Pertencendo a uma família de músicos, considera ter alguma característica intrínseca que o distinga dos seus irmãos, enquanto músico?
Os meus irmãos e eu fomos sempre muito próximos e fizemos sempre as mesmas coisas juntos, fosse jogar à bola ou tocar música. Somos parecidos em muitos aspectos mas também somos bastante diferentes noutros. Julgo que cada um tem a sua personalidade bem distinta. Não saberia dizer o que me distingue dos meus irmãos mas posso talvez falar do que me caracteriza. Fui totalmente autodidacta e toquei sempre de ouvido, privilegiando a abordagem intuitiva. Quando toco, prefiro não pensar em nada e deixar que as ideias surjam por si só e fluam num discurso que possa ser interessante.
Como analisa o actual panorama do jazz em Portugal? Há mais festivais, mais concertos, mais discos… Dê-nos a sua opinião, apontando-nos pontos fortes e pontos fracos…
Vejo com bons olhos que haja mais festivais, concertos e discos pois quanto maior a actividade jazzística melhor para todos, músicos, promotores ou editoras. Nas iniciativas privadas julgo que não se pode criticar muito senão as opções pessoais ou o gosto de quem programa, mas temos de aceitar que tudo isso é legítimo. No caso dos dinheiros públicos já não será tanto assim. Pessoalmente julgo que se o investimento é público devia haver a obrigação de acarinhar de alguma forma o músico português ou pelo menos fazer com que a iniciativa estimule de alguma forma a comunidade musical. Temos sempre de fazer a pergunta "o que é que ficou depois do festival?". Frequentemente não fica muito para além dum bom concerto.
É consumidor de discos? O que anda a ouvir?
Sou e fui sempre um consumidor compulsivo de discos. Oiço um pouco de tudo mas isolo um ou dois discos para ouvir com maior atenção. Oiço esses discos varias vezes ao dia e ao longo de meses! Nesta fase estou (ainda) a ouvir os diferentes projectos de Kenny Wheeler e John Taylor... são músicos que não se esgotam depressa.
O que podemos esperar do João Moreira nos tempos mais próximos?
Como diria qualquer treinador de futebol, só posso prometer muito trabalho!
(entrevista de base realizada para a elaboração do Perfil de João Moreira, publicado no n.º 15 da revista Jazz.pt)
Publicado por António Branco às novembro 16, 2007 06:05 AM
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