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José Menezes (foto: Olga Moreira)
O saxofonista José Menezes é um dos mais sólidos e multifacetados músicos portugueses de jazz. Ao longo de uma carreira recheada, tem orientado os seus esforços em múltiplas direcções. Hoje, na pacatez de Torres Vedras, privilegia a vertente pedagógica, mas desdobra-se em vários projectos. O Improvisos Ao Sul quis saber mais sobre o que anda a fazer.
Improvisos Ao Sul (IaS): Nasceu no Porto, em 1957. O interesse pela música surgiu cedo na sua vida? Tinha (ou tem) antecedentes familiares ligados à música?
José Menezes (JM): O meu primeiro contacto com um instrumento aconteceu por volta dos 10/11 anos com a oferta de uma harmónica, uma vulgar gaita de beiços que me entreteve durante muito tempo. A coisa passou, durante uns anos não tornei a pensar em música até que descobri o piano da minha tia, um Bechstein vertical com um som lindo , para além de um cheiro que ainda hoje reconheceria em qualquer parte… Por volta dos 14/15 anos comecei a brincar com as notas, a juntá-las no piano, a descobrir relações entre os sons mas o acto de soprar tinha já ficado gravado e quando me decidi a escolher um instrumento escolhi o saxofone.
Que memória guarda dos primeiros contactos com o jazz?
Ouvi Jazz pela primeira vez em frente televisão, a preto e branco, meados dos anos 60, eu teria 8 ou 9 anos, e foi um solo do Carlos Menezes, um guitarrista de topo na época (vim a saber quem era anos mais tarde…) Lembro-me de ser muito miúdo mas ter dado muita atenção ao que estava a ouvir e tive a noção de que o guitarrista estava a inventar a música na hora. Depois vim a saber que aquilo era Jazz. Entretanto apaixonei-me pelo “blues” – a tal harmónica tinha deixado “mossa”. Voltei a cruzar-me com o Jazz em 71, quando em Dezembro (com uns trocos ganhos ao loto na noite de Natal) comprei a revista “Mundo da Canção”e li a delirante descrição do concerto de Miles Davis escrita pelo Jorge Lima Barreto em que descrevia Jarrett movimentando-se no piano “como uma cegonha em cópula”. Achei aquilo do Jazz muito estranho e misterioso e prometi a mim mesmo investigar.
E a sua integração no círculo de músicos de jazz do Porto? Conte-nos essas experiências…
O Porto, naquela altura era um deserto no que respeita ao Jazz. Não havia ninguém a quem perguntar fosse o que fosse sobre música e o Conservatório não era uma opção já que de Jazz também não ensinava nada. Eu como realmente não sabia tocar, pensava que tocava free-jazz. É uma atitude muito comum em candidatos a músicos de jazz. Havia o Rui Azul que tocava tenor e depois tinha ouvido falar de um tal Zé Nogueira e em mais dois ou três músicos interessados em Jazz. Nesse ponto foi muito importante ter conhecido os irmãos Barreiros, especialmente o Mário, ele próprio também no início da sua paixão pelo Jazz e que sabia muito mais de música do que eu para além de já ter, nessa altura, muita experiência de palco devido ao grupo em que tocava na altura (Mini-Pop). De resto a casa deles veio a ser o ponto de encontro de muitos músicos e aspirantes a músicos dando, mais tarde, origem à Escola de Jazz do Porto. Foi uma altura muito marcante
Quais têm sido as suas maiores influências?
A minha maior influência foi o John Coltrane. Acho que a música e o exemplo dele moldaram, não só a minha maneira de tocar como a minha maneira de ver o mundo, musicalmente e não só. Outro saxofonista na órbita do Coltrane foi importante para mim, o Pharoah Sanders. Também os discos do Elvin Jones após 67 me “bateram” (ainda “batem”…) de uma forma especial bem como os dos Jazz Messengers da altura do Shorter e do Freddie Hubbard. Dois discos do Dave Liebman tiveram também, nessa altura um impacto que dura até hoje –“Lookout Farm” e o “Sweet Hands”. E muitos outros discos, mais dos que cabem aqui. Também alguns músicos portugueses me foram importantes nos anos iniciais da minha formação – Já falei no Mário Barreiros, mas também o José Nogueira e o Rao Kyao.Quanto a influências extra-musicais a literatura e o cinema foram marcantes mas não vou enumerar obras e autores. É uma bela ocasião perdida para “dar uma” de culto mas enfim…
Proponho-lhe o exercício de eleger os três ou quatro momentos que considera mais marcantes ao longo do seu diversificado percurso…
- O meu primeiro concerto com uma orquestra sinfónica. Obras de António Vitorino de Almeida - “A Fábrica dos Sons” e o “Chacareiro Mágico”. A minha leitura musical era ainda frágil, as peças bastante difíceis (para toda a orquestra) e eu completamente “verde” no que respeita a seguir a direcção de um maestro de uma orquestra clássica. Foi o que mais me custou fazer, até hoje. No fim da primeira semana de ensaios telefonei ao 1º trompete da orquestra, o prof. Macedo (que tinha sugerido o meu nome para fazer a parte de saxofone, bastante trabalhosa) dizendo-lhe que não ia conseguir fazer aquilo. Respondeu-me : “ok, Zé.Vemo-nos amanhã às 3h no ensaio” e desligou. Devo-lhe a ele ter-me evitado uma derrota que, sem dúvida, teria consequências graves no meu percurso. Dei a volta à questão e o concerto acabou por correr muito bem. Foi uma vitória importante ter conseguido fazer aquilo.
- Concerto com o Decateto de Mário Laginha no Jazz em Agosto em 87 (anfiteatro da Gulbenkian). A primeira vez que o Laginha escrevia para uma formação alargada e a primeira vez que eu tocava Jazz com um grupo daquele nível, para um público imenso e completamente disponível musicalmente. O concerto foi um sucesso. Tenho a certeza que o Mário Laginha e todos os músicos presentes ainda se lembram bem daquela noite.
Outro momento com um significado especial foi a gravação do CD da Big Band do Hot-Club com Benny Golson, Curtis Fuller e Eddie Henderson. A autoridade musical e o peso histórico daqueles músicos transformou aqueles momentos em qualquer coisa especial. Muita música a sair daqueles instrumentos…
- Por último e para além de muitos outros momentos que me foram importantes, o da abertura da Escola de Jazz de Torres Vedras, “invenção” de uma Escola de jazz num meio rural sem tradição nessa área. O início de um percurso muito trabalhoso mas estimulante, um exercício de teimosia e persistência.
Há um par de anos refugiou-se perto de Torres Vedras, onde montou o seu quartel-general. Quais as vantagens, como músico e professor, que esta mudança lhe trouxe?
As vantagens bem como as razões que me levaram à mudança, são, principalmente, de ordem pessoal. Mudei-me quando o meu filho terminou o ensino básico. Procurei um ambiente mais saudável para ele crescer. Essa decisão não foi pensada, em primeira mão, em termos de vantagens para mim enquanto músico ou professor. A ideia de abrir uma Escola de Jazz aconteceu anos depois, quando reparei que o ensino de música na zona era de baixa qualidade, muito antiquado e tradicional, no pior sentido da palavra. Claro está que o facto de não haver muitas propostas culturais na região deixava espaço em aberto para novas propostas. Assim nasceu o festival TvedrasJazz, o “Jazz Vai à Escola” e a Big Band do Oeste”. Mas se por um lado a reduzida dimensão do meio pôde proporcionar o aparecimento destes projectos, essa mesma reduzida dimensão do meio tende a tratar estes projectos como novidades do momento e a não investir a médio prazo de uma forma séria e pensada apesar dos bons resultados obtidos em cada um deles. A excepção é o projecto pedagógico “Jazz vai à Escola” que, em parceria com as Câmaras de Torres Vedras e da Lourinhã envolveu, até ao momento 7.300 alunos do básico ao secundário. Pelo contrário,o festival TvedrasJazz, que obteve no seu 2ºano apoio máximo do Instituto das Artes, logo no ano seguinte sofreu um desinvestimento não só financeiro mas no âmbito do próprio conceito, por parte da Autarquia. A mesma autarquia que tem ignorado o trabalho desenvolvido pela Big Band do Oeste, projecto sediado em Torres Vedras.
Dedica uma fatia importante da sua actividade profissional à componente lectiva. Em 2002 fundou a Escola de Jazz de Torres Vedras. Como encara a actividade docente? Quais as principais mensagens que procura veicular aos seus alunos?
Com a abertura da Escola de Jazz numa zona rural como Torres Vedras os desafios que se colocam, para além dos de ordem musical, passam, principalmente pela mudança de atitude para com a Música, o ensino de Música e o Jazz em especial.. Consequentemente encaro a actividade lectiva em todos os locais onde ensino, antes de mais, como uma forma de mudar mentalidades e formas de pensar. Tento passar aos meus alunos a ideia de que, como dizia Ellington, realmente só há 2 tipos de música – a boa e a má. Procuro que os meus alunos tenham contacto com Lester, Parker e Coltrane mas também Ornette, Zorn ou Gayle. Gosto de os provocar, de os estimular para que eles próprios aprendam a encontrar soluções para os problemas musicais. Pensar bem é fundamental. Procuro fazer com que os alunos, qualquer que seja o nível de desenvolvimento, se questionem sobre o que estão a fazer e percebam que há muitas outras formas diferentes de chegar ao mesmo “sítio”. E depois é fundamental que o estudo do instrumento se transforme – e quanto mais cedo melhor – num jogo pelo qual o aluno se apiaxone. Preocupo-me bastante com a pedagogia do Jazz. Acho-a uma área fascinante. Para além disso, este tipo de reflexão é-me muito útil enquanto, eu próprio, estudante – coisa que, estou certo, nunca deixarei de ser.
Como vê o nascimento de tantas escolas e outros projectos ligados ao ensino e à divulgação do jazz no nosso país? Acha que há espaço para todos?
Realmente estão a acontecer muitas coisas. O ensino do Jazz está a conhecer um “boom” muito grande com o consequente aumento do número e qualidade dos estudantes e praticantes. Por outro lado, acho que ainda há muito a fazer. Tem-se verificado nos últimos tempos o aparecimento de projectos pedagógicos centrados no Jazz (escolas, workshops, cursos) dirigidos por músicos que não praticam a linguagem, pessoas que, em meu entender, não têm a preparação pedagógica ou disponibilidade psicológica para ensinar Jazz. Isso tem como consequência um ensino deficiente, uma enorme perda de tempo e dinheiro e, em último caso, a desistência da aprendizagem. Contacto com muitos alunos que passaram por experiências desse tipo e é lamentável constatar quanto tempo e energia se gastaram para quase nada. Acho que o tempo se encarregará de fazer a selecção natural entre uns e outros projectos. Pelo lado positivo as notas altas vão para a Festa do Jazz no S. Luiz como um importante momento de estímulo, de amostragem e cruzamento de experiências entre estudantes e músicos de Jazz e para o Curso de Jazz da Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo no Porto. Um projecto pioneiro, com irrefutável sucesso que entrou, em minha opinião, numa segunda fase de vida onde o maior desafio será manter e se possível melhorar a qualidade e níveis iniciais. Essa qualidade correrá sérios riscos se muito rápidamente não fôr preenchido o vazio curricular ao nível do ensino secundário de Jazz. Ou seja, há, neste momento, uma licenciatura, mas não há um Curso secundário de Jazz. Para além de caricata, a situação reflete o atraso de mentalidades no ensino artístico em geral e no ensino de música em particular já que, na esmagadora maioria dos países europeus, existem Cursos de Jazz nos Conservatórios. Não havendo uma formação sólida de nível secundário a licenciatura actual (e outras que venham a abrir no futuro) terá, para sobreviver, de aceitar alunos menos preparados para ingresso num nível superior de ensino, situação que já começa a acontecer. Na Academia de Amadores de Música, em Lisboa, um grupo de professores dos quais, para além de mim, fazem parte o Mário Delgado, o Alexandre Diniz, o Massimo Cavalli, o Alexandre Frazão, tem estado precisamente a trabalhar no sentido de, a curto prazo, oficializar um Curso de Jazz de nível secundário. Esperamos ter sucesso e abrir um precedente a nível nacional. Todos teriamos a ganhar.
E como analisa o actual panorama de festivais, discos … também nunca houve tanta abundância…
É óptima a existência de tantos festivais mas no que respeita ao desenvolvimento dum meio musical de Jazz ele passa, em primeira mão, pelos clubes. O reduzido circuito regular de clubes de Jazz não permite rodar um projecto ou grupo de forma a que esse grupo possa “polir” o seu produto, dar-lhe forma, deixá-lo crescer e amadurecer. Dos Festivais que acontecem ao longo do ano considero uns mais relevantes que outros dependendo do que “deixam atrás” ou seja, do que fica depois de acabar o seu último concerto. Óbviamente que um festival não pode ser unicamente uma sequência de concertos uns a seguir aos outros. Infelizmente é o que acontece em alguns casos. Deve haver, na organização de um festival, uma visão global, alargada da prática e do consumo do Jazz, uma visão transdisciplinar desta música tendo sempre em conta a formação de novos públicos para este tipo de música. Foi precisamente este conceito que pus em prática nas duas edições do TvedrasJazz (05 e 06) fazendo o festival cruzar-se com o projecto “O Jazz Vai à Escola” e com a actividade da “Big Band do Oeste”, incluindo na programação do festival ciclos de cinema sobre Jazz, colóquios, exposições de fotografia, jam sessions e workshops. Chegamos inclusivamente a ter durante o festival, numa cadeia de restaurantes local, uma semana gastronómica de “Jazz-food” .Aproximar as pessoas do Jazz pode – e deve - ser feito de muitas maneiras.
A cidade do Porto é actualmente um foco de muitos e bons saxofonistas (Mário Santos, Zé Pedro, Rui Teixeira, etc.), que, por seu turno, rareiam em Lisboa. Será este um outro sinal dos tempos em matéria de descentralização do jazz em Portugal?
O aparecimento, no Porto, de bons saxofonistas (e de outros bons instrumentistas e improvisadores de uma forma geral) , deve-se, em minha opinião, e em primeiro lugar, à existência de um ambiente que tem vindo a ser criado ao longo dos últimos 20 anos, que teve início ainda antes do aparecimento do Curso de Jazz da ESMAE e que explodiu com a abertura desse curso. Um ambiente que cresceu lentamente e que permite hoje em dia a existência (e sobrevivência) de um curso superior de Jazz e de mais duas escolas de Jazz. Na ESMAE, aberta 24 sobre 24 podemos encontrar gente a praticar o instrumento às 2 ou 3 horas da manhã. Vive-se um ambiente de grande paixão pela música. Por outro lado, com uma indústria musical desde sempre menos desenvolvida que a de Lisboa, os músicos do Porto, menos requisitados para gigs, estúdio e trabalho “comercial” sempre se puderam concentrar mais no seu trabalho, de uma forma, digamos, mais “artesanal” (no melhor sentido da palavra). Isso sempre se passou não só com o Jazz mas também com o Rock. Do Porto sempre sairam alguns dos mais interessantes projectos musicais nessa área. Concretamente no que respeita ao ensino do saxofone de jazz no Porto há uma tradição que - acho que poderei dizê-lo sem faltar à verdade- começou comigo e que continua de uma forma muitíssimo competente com o Zé Luis Rêgo e o Mário Santos, que têm sido professores da maioria dos bons saxofonistas portuenses. No que respeita à palavra-chave da sua pergunta – “descentralização” - ela é um facto especialmente se tivermos em conta alguns factos: uma Big Band de Matosinhos no Carnegie Hall, (talvez) o melhor festival de Jazz do país em Guimarães, um Curso superior de Jazz no Porto, uma disciplina de História do Jazz na Universidade de Aveiro, uma intensa actividade em Coimbra, projectos pedagógicos com um considerável impacto na comunidades escolares de Torres Vedras e Lagos. Por outro lado tentemos lembrar-nos de há quanto tempo não há, em Lisboa, um workshop internacional de Jazz digno desse nome ou sequer, um festival de Jazz da cidade…
Como instrumentista e compositor, está actualmente envolvido num conjunto de diferente projectos. Pode caracterizá-los sumariamente?
De momento divido a minha atenção musical pelo meu quinteto com música original, pelo projecto Improvisible , em duo com o baterista José Salgueiro. Ocupo-me também com a direcção da Big Band do Oeste e integro uma formação dirigida pelo jovem e talentoso compositor Marco Barroso – a Lisbon Underground Music Ensemble (LUME, prós amigos…) grupo que eu acho irá dar que falar. Para além disso sou candidato ao mestrado sobre Improvisação na Universidade de Sheffield, candidatura essa que, espero eu, venha a ser aceite muito em breve.
Tem-se apresentado com o projecto "Improvisible", do lado do baterista e percussionista José Salgueiro. Como surgiu este projecto? Há planos de gravação?
O projecto Improvisible tem uma componente visual baseada nas experiências cinematográficas do principio do sec. XX onde, por ausência de texto falado o ritmo da imagem dominava o discurso visual. Este duo nasceu da minha vontade de “olhar o ritmo nos olhos”, se me faço entender. O Zé Salgueiro é um grande músico e um divertido companheiro de aventura. Nesta formação procuro explorar zonas menos frequentadas da minha personalidade musical e descobrir o que lá possa encontrar. A ver se um dia destes gravamos .
Porque razão não há mais trabalhos gravados do José Menezes como líder? Gosta do trabalho de estúdio?
Gosto muito do trabalho de estúdio, isto é, do rigor que ele implica. È como nos olharmos ao espelho ou (quando corre pior) vermos a radiografia do nosso dente cariado. Quanto ao facto de não ter – ainda?– trabalhos meus como líder creio que isso resulta de várias coisas: Algum desleixo para com o projecto de gravar. A quantidade enorme de projectos em que me envolvo, vai deixando o da gravação, de ano para ano, em 2º (às vezes 3º) plano. Depois acho necessário maior estabilidade na formação com que trabalho e investir mais tempo na composição.
Li, numa entrevista que deu (a Pedro Osório), que para si "muitas pessoas usam o jazz para se demarcarem do pimba, perante os outros ou perante si próprias". Explique-nos melhor esta sua posição... Quando disse isso creio que falava de como o Jazz é utilizado por indivíduos, instituições ou produtos de forma de chamarem a si um certo verniz cultural. Hoje em dia é “policticamente correcto” disser que se gosta de jazz bem como comercialmente vantajoso associar a palavra “jazz” a produtos e eventos. Veja-se por exemplo o caso do Cool Jazz Fest, festival que ocorre anualmente no nosso país e não inclui um único grupo de jazz. Digamos que o jazz se tornou, em muitos casos um “sinal exterior de cultura” pronto a ser usado sempre que dê jeito.
O que ouve actualmente? Qual o último disco que comprou?
Tenho andado a ouvir principalmente saxofonistas de duas gerações bastante diferentes . A geração dos pós-coltraneanos nova-yorquinos como Steve Grossman, o Liebman, George Garzone, Jerry Bergonzi, Bob Berg. O disco chave desse período após a morte do Coltrane é, para mim, o “Elvin Jones Live at the Lighthouse”, disco que eu tenho consumido em grandes doses e de cuja transcrição tenho andado às voltas. Gosto muito dessa concepção de linha improvisada, e da energia das secções rítmicas mais relacionadas com esse conceito. Por outro lado tenho ouvido uma outra geração de jovens músicos fantásticos que já marcaram, a meu ver, o seu lugar na história do Jazz e cujo fraseado me fascina também: no tenor Donny McCaslin, Chris Cheek (a não perder o disco com a Orquestra de Jazz de Matosinhos), Tony Malaby e Seamus Blake e dois altos incríveis, Rudresh Mahanthappa e Steve Lehman. Recentemente fiz uma aproximação maior à música do Woody Shaw que conhecia mal já que, em quinteto, fiz um programa dedicado exclusivamente a ele e ao Joe Henderson. O último CD comprado foi o“Purple Violets” do mestre Sam Rivers.
Da sua experiência, pode concluir que existe, de facto, um "jazz português" ou é abusivo afirmar-se isso?
Sim. Há um Jazz que sinto como realmente português apesar de não saber definir esse conceito muito claramente. Portugal sempre foi um país de encontro de culturas: da árabe, celta, sefardita, africana, brasileira. Há traços desta mistura - que, afinal, somos nós - que ressaltam claramente em algum do bom jazz que se faz em Portugal e que, nos últimos 15 ou 20 anos tem passado especialmente pelo piano : António Pinho Vargas, João Paulo Esteves da Silva, Bernardo Sassetti ou Mário Laginha com a Maria João e o Rui Luis Pereira são os nomes de que me lembro em primeiro lugar. Lembro-me de ter tido a noção de que havia realmente um jazz português por volta de 83 da primeira vez que ouvi “Alentejo, Alentejo” de António Pinho Vargas.
(entrevista de base realizada para a elaboração do Perfil de José Menezes, prublicado no n.º 14 da revista Jazz.pt)
Publicado por António Branco às setembro 26, 2007 06:21 AM
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