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agosto 14, 2007
JAZZ EM AGOSTO – 2ª PARTE – BREVES IMPRESSÕES
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Preparando o terreno para a chegada da figura mais grada da edição deste ano – Ornette Coleman – o segundo bloco do Jazz em Agosto 2007 começou na passada quinta-feira (9 de Agosto) ao fim da tarde, com “Ornette: Made In America”, filme/documentário realizado ao longo de 20 anos pela cineasta norte-americana Shirley Clarke. Apesar do carácter inovador do modo como se acerca da obra do músico – baseada em captações footage e em depoimentos cuidadosamente intercalados –, interessou-me sobretudo pela sua vertente histórica e documental de inegável importância. À noite, já no magnífico espaço do Auditório ao Ar Livre, apresentou-se o projecto Bottoms Out, do contrabaixista Joe Fonda, nome em tempos ligado a Anthony Braxton, e como um sólido percurso como líder. Fazendo alarde de uma inusitada combinação instrumental – com fagote, saxofone barítono, sousafone e clarinete baixo, apoiados pela secção rítmica – e da excelência dos músicos em presença, Fonda constrói ambientes em torno dos baixos, procurando gerir as suas sonoridades díspares num corpo uno. O início foi prometedor, com o trepidante “Bottoms Out”. O tributo ao falecido multi-instrumentista e compositor Thomas Chapin (em “Gone Too Soon”) foi menos conseguido e mesmo algo entediante. O nível voltou a subir em “Rocks In My Head” (propulsionada por uma possante malha de contrabaixo). Em plano de particular destaque esteve a secção rítmica (Fonda e Gerry Hemingway entenderam-se às mil maravilhas) e também a prestação do superlativo Michael Rabinowitz, que no fagote (raro, jazzisticamente falando) rubricou as mais consequentes intervenções da noite (recorrendo por vezes a efeitos wah-wah). Joe Daley no mastodôntico sousafone e o alemão Gebhard Ullmann, no clarinete baixo, também estiveram em bom plano. Menos espaço de manobra teve Claire Daly, no saxofone barítono. No cômputo geral, o resultado, esse, acabou por se revelar positivo, apesar das oscilações registadas. O programa de sexta-feira começou com a estreia em Portugal do brilhante documentário “My Name Is Albert Ayler”, realizado pelo sueco Kasper Collin (que, no final da sessão se disponibilizou para responder a questões). Uma visão profunda e sentida sobre a curta carreira de um músico iconoclasta que, incompreendido, encontrou na Escandinávia a força de que necessitava para enfrentar a América. Declarações retiradas de entrevistas suas (registadas entre 1963 e 1970) e outros depoimentos fundamentais – de entre os quais os do pai Edward e do irmão Don e de músicos e outras pessoas que com ele privaram –, ajudam a construir um belo monumento fílmico à memória de Albert Ayler, precocemente desaparecido em Novembro de 1970, em circunstâncias nunca cabalmente esclarecidas. Ainda ecoam as palavras de Ayler, ao recordar o momento em que soube que John Coltrane queria que ele tocasse no seu funeral: “How can I do that? How can I do it crying?”. Ao final da tarde, a aguardada alocução de Ornette Coleman. Visivelmente nervoso por estar perante uma plateia sem ser para tocar a sua música – quase sempre de olhos fechados –, dissertou pausadamente durante cerca de meia hora sobre as fragilidades do ser humano, a espiritualidade, o amor, Deus, a vida e a morte. Reforçou estranheza que era para si o facto de se pensar que ele é mais importante do que cada um dos que ali estávamos para o ouvir. E que inspirador foi ouvi-lo. O serão foi preenchido com o Quartet Noir, consórcio franco-suiço-americano constituído pelos nobres improvisadores – Urs Leimgruber (saxofones tenor e soprano), Marilyn Crispell (piano), Joëlle Léandre (contrabaixo) e Fritz Hauser (bateria). Duas longas improvisações, feitas de recantos angulosos e sombrios, a espaços, porém, inundados por intensos raios de luz. Uma teia complexa, feita de intercruzamentos tímbricos e de micro-jogos melódicos, nunca imediatos ou previsíveis. Excelente (apesar de por vezes demasiado protagonista) o saxofonista Urs Leimgruber, pelo seu papel fulcral no desenrolar colectivo dos acontecimentos. Mais serena, Marilyn Crispell criou em grande parte do tempo ambiências estratosféricas. Joëlle Léandre é uma notável improvisadora, apesar da sua postura, por vezes com o seu quê de histriónica. Fritz Hauser foi criativo e eficaz, no seu estilo de artífice meticuloso. Na noite amena de sexta feira, 10 de Agosto, um belíssimo momento de música arriscada, mas (talvez por isso) deveras estimulante. Finalmente, o quinteto de Ornette Coleman, regressado a Portugal quase 20 anos depois. Acompanhado por uma muralha rítmica constituída por dois contrabaixos (Tony Falanga e Charnett Moffett), um baixo eléctrico (Al McDowell) e bateria (o seu filho, Denardo), Ornette, quase octogenário, brilhou a grande altura. O seu génio continua bem presente, transbordante de energia e vitalidade criativas. Arrancou com o supersónico “Follow the Sound” e depois centrou-se no recente e premiado “Sound Grammar” (em peças como “Jordan”, “Sleep Talking” ou “Turnaround”). Vestido com um fato azul eléctrico e com o característico chapéu, ainda utilizou um par de vezes o trompete, mas não chegou sequer a pegar no violino. As influências que desde sempre, têm estado presentes na sua música – os blues, os espirituais e –, parecem surgir agora mais claras e límpidas do que nunca, filtradas por uma vida plena de música sempre desafiante e imprevisível. A estes elementos juntou ainda passagens da 1ª Suite para Violoncelo de Bach, que surpreendeu. Foi bem acolitado por todos os músicos, em especial por Tony Falanga – mestre no domínio do arco – e Denardo Coleman, extraordinário no trabalho de pratos. Perante uma plateia rendida à força e à espiritualidade da sua música, voltou ao palco para, em encore, tocar “Lonely Woman”, emblema incontornável do jazz livre. Mesmo no final, um momento pleno de simbolismo (em jeito de despedida?), com Ornette a levar uma criança para o palco, segredando-lhe ao ouvido algo que provavelmente nunca saberemos. Um concerto inesquecível, a todos os títulos. Publicado por António Branco às agosto 14, 2007 08:49 AM |
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