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André Fernandes (foto: Mercedes Pineda)
O nosso país tem sido palco, nos últimos anos, de uma verdadeira explosão de guitarristas de jazz. Do imenso rol de jovens músicos, André Fernandes é um dos mais destacados, facto que o levou a ser convidado por Lee Konitz para integrar o seu grupo europeu. O "Improvisos Ao Sul" quis saber mais.
Como surgiu a música na sua vida? Desde cedo? Tem antecedentes familiares nesta área?
A música esteve sempre presente na minha vida. O meu pai tocava piano e é um amante do Jazz e da música brasileira. Chegou a estudar no Hot e a tocar em clubes e cabarets com nomes incontornáveis dessa altura como o Gualdino Barros e o Nuno Gonçalves (pai do pianista Rodrigo). Em casa a música era uma constante desde criança, quer através dos discos do meu pai, dos discos do meu irmão mais velho, que me expôs ao rock e pop da altura, ou das sessões de improvisos do meu pai ao piano. Também assisti (e adormeci várias vezes!) a várias edições do Cascais Jazz e outros concertos de Jazz, e penso que de uma forma mais ou menos indirecta isso me marcou até hoje.
E o interesse pelo jazz, como linguagem musical, como despontou?
Tal como disse ouvi Jazz desde sempre, mas não me interessei a sério até ter sido arrastado pelo meu pai para um concerto do Pat Metheny no Coliseu. Aí, por qualquer razão deu-se o clique. Já tocava guitarra nessa altura, mas de repente comecei a dedicar-me compulsivamente a ouvir, transcrever e absorver discos de jazz em casa, até entrar para o Hot. Aí tornou-se mesmo uma ocupação a tempo quase inteiro.
Escolheu a guitarra, como veículo de expressão musical, por alguma razão particular?
Não. Penso que foi pelas mesmas razões que a maior parte dos adolescentes que pegam numa guitarra. Era um instrumento que eu conotava com os meus ídolos do rock, e que servia para impressionar as raparigas em qualquer lado! Pouco tempo depois, com o interesse pelo jazz, comecei a compreender outros potenciais e subtilezas do instrumento pelo qual acabei por me apaixonar. Mas penso que se tivesse consciência de tudo naquela altura, provavelmente teria escolhido outro instrumento, como o piano ou a bateria.
Como se define enquanto músico e compositor? Qual o papel que atribui à improvisação na construção da sua música...
A única ideia mais concreta que tenho de mim próprio como músico, é que encaro a música como uma forma de vida que me envolve totalmente. Acredito na dedicação e principalmente na honestidade perante essa coisa feita de sons que é a música, e que nos ultrapassa como seres humanos. Não penso ter total controle sobre tudo o que faço, e isso é que me atrai na música. Há algo de misterioso no processo de a fazer, como se parte daquilo que fazemos viesse de um plano que nos ultrapassa, e nós somos apenas veículos transmissores. Temos é que nos preparar o melhor possivel (estudando e praticando) para poder veícular aquilo que nos surge como inspiração. Na música que faço, a improvisação tem um peso muito grande, tal como na maior parte do jazz e músicas do género. Escrevo coisas que possam potenciar a vontade e inspiração dos músicos a improvisar sobre os sons que escrevo. No entanto, nem sempre isso é a prioridade. Podem surgir temas mais organizados e delineados, em que os solos sejam um complemento do tema, ou o contrário.
Quais os músicos que mais contribuíram para "moldar" o seu som, ao longo do seu percurso? Guitarristas e não guitarristas...
No início as minhas influências foram claramente guitarristas como o Pat Metheny, John Scofield, Bill Frisell, Wes Montgomery, Jim Hall, e os "outros" como o Kurt Cobain, Van Halen, Jimi Hendrix.
Mas hoje em dia ouço muito poucos guitarristas. Gosto muito de ouvir pianistas como o Bill Evans, Keith Jarrett, Craig Taborn, Bobo Stenson, John Taylor, etc.
O que ouve habitualmente?
Tenho que admitir que, como muitos músicos, não sou um melómano. Não tenho aquele prazer no conhecimento enciclopédico da história desta música. A minha resposta é por isso dificil porque estou sempre a saltitar de cd em cd. Mas posso referir algumas coisas que ando a ouvir mais frequentemente: Keith Jarrett, Nirvana, Queens of the Stone Age, Bartók (Quartetos de cordas), Chris Cheek, Craig Taborn, Nils Wogram, Kenny Wheeler, Lee Konitz.
De todos os "jazzes", qual é o seu jazz?
Todo aquele que me parece bom! Gosto de música que me pareça honesta e focada. Tenho muita dificuldade em ouvir jazz que tenha maus instrumentistas a tocar, ou que tenha bons instrumentistas a tentar imitar outros músicos. Isso custa-me.
Tem-se interessado igualmente pelas electrónicas, em especial através do projecto sPILL... O que lhe interessa nesta área? Pretende dedicar-se mais à sua exploração?
Sim. A electrónica é uma área que me atrai imenso. Penso que pelo potencial de manipulação de sons e ritmos que permite. Podem-se explorar sons e situações musicais que dificilmente se conseguiria com instrumentos "convencionais". Não a vejo, no entanto como algo que substitui os músicos, mas sim como um complemento. Um bom exemplo : Craig Taborn "Junk Magic".
Foi convidado em 2006 para integrar o grupo europeu de uma das lendas vivas do jazz, o saxofonista Lee Konitz... Em que ponto está esta colaboração? Tem sido uma experiência enriquecedora?
De momento tenho mais duas tournees europeias agendadas com o Lee. Sinto-me grato de ter tido a oportunidade de fazer uma tour com ele em Novembro passado, e ainda mais grato por saber que vou poder repetir a experiência. Foi, e é incrivelmente enriquecedor. Poder acompanhar alguém como o Lee Konitz, que atravessou a história do Jazz sem nunca olhar para trás, é simultaneamente assustador e motivador.
Os seus discos têm vindo a revelar um crescente grau de depuração, evidenciando um rumo claro. "Timbuktu" é um disco que exibe uma grande maturidade e uma ideia muito concreta sobre o que pretende fazer. Quer traçar um breve roteiro sobre a sua discografia? De entre todos, qual o disco que mais o marcou?
O meu primeiro disco "O Osso" foi gravado em um take no Hot Clube. Para mim, não sendo o meu disco favorito, até porque penso que não estou a tocar tão bem como gostaria, foi o disco mais marcante. Isto porque representa um momento de viragem na minha postura e maturidade como músico. Aprendi a ver a música de outra forma com o Jochen Rueckert, o Pete Rende e o Julian Arguelles. Percebi que a música não está nos dedos, mas na cabeça. Depois gravei "Howler". Gosto muito deste disco porque penso que conseguimos criar um som de grupo. A música que o Matt Renzi, o Pete, o Bernardo Moreira, e o André Sousa Machado fizeram daqueles pedaços de papel que lhes dei para ler ainda me impressiona pela simplicidade e profundidade. A música é deles. Depois editei "Amplitude" com os sPiLL. Este é o tal projecto em que pego na electrónica. No entanto, pego mais na sonoridade electrónica do que propriamente nas máquinas. O disco é todo tocado "live", sem loops, etc. O trabalho do André Sousa Machado é um tratado! E finalmente gravei "Timbuktu". Este CD é para mim muito especial. Tentei fazer música que se alimentasse do formato de canções, e que permitisse integrar uma variedade de formações. Fiquei muito feliz de poder ter um disco que inclui tantos dos meus músicos favoritos. É um privilégio. Tal como nos outros discos (e isto tem a ver com a escolha dos músicos) tentei fazer musica que nao vivesse de superficialidades técnicas, virtuosismos, etc. Daí talvez te tenha surgido o termo "depurado". E ainda bem.
Encontrou o "quarteto perfeito" com o Mário Laginha, o Nelson Cascais e o Alex Frazão? Como é trabalhar com estes músicos?
Eu espero que sim! Sempre tive uma enorme admiração pelo Mário Laginha. Tive a oportunidade de tocar no grupo dele e fiquei com pena de não o fazer mais vezes! Por isso este ano decidi apostar num grupo que pudesse funcionar regularmente ao vivo, o que é impossivel de fazer com músicos estrangeiros, como alguns que gravaram os meus discos. Escolhi o Mário, o Nelson e o Alexandre porque queria escrever música especificamente para a personalidade de cada músico, e estes são alguns dos músicos mais identificáveis em Portugal. Adoro a forma como tocam, e espero poder apresentar o grupo ao vivo o mais possivel.
Como vê o surgimento de tantos guitarristas de bom nível no panorama do jazzístico português? Em sua opinião, porque não se passará o mesmo para outros instrumentos?
Vejo com muita alegria. Acho que quantos mais músicos bons existirem, melhor. Cria um aumento de qualidade em todos. Tenho realmente pena que não seja tão frequente noutros instrumentos, mas mesmo assim, vão aparecendo.
E a aventura editorial com a Tone Of A Pitch, como tem corrido?
A TOAP tem sido uma aventura dificil, mas muito recompensadora do ponto de vista pessoal. É claramente muito dificil manter uma label de Jazz em qualquer ponto do mundo, e ainda mais em Portugal. No entanto, o sinal de que estou a fazer algo de positivo pelos músicos em que acredito é que cada vez temos mais propostas de edição de todo o mundo, e cada vez mais a label é reconhecida internacionalmente. Só tenho pena que algumas peças do puzzle (como a FNAC, e alguma imprensa) não percebam a importância que uma editora com estas características tem para o futuro dos músicos, desta musica, e para a internacionalização dos músicos portugueses.
Há algum músico (nacional ou internacional) com o qual gostaria especialmente de trabalhar?
Felizmente tenho tido oportunidade de tocar com alguns dos meus músicos favoritos como o Chris Cheek, Mark Turner, David Binney, Mário Laginha, Lee Konitz ou o Perico Sambeat. Adoraria tocar com muitos outros. Brad Melhdau, Ethan Iverson, Jeff Ballard, Reid Anderson, e tantos outros.
O que podemos esperar do André Fernandes nos tempos mais próximos? (novos projectos, etc...)
Agora estou a focar a minha atenção no quarteto com o Mário, o Nelson e o Alex, e espero poder gravá-lo até ao final do ano. E tocar com eles ao vivo. Até ao final do ano tenho bastantes coisas com que me entreter, as digressões com o Lee Konitz, uma peça escrita pela Andreia Pinto Correia para a Orquestra de Jazz de Matosinhos em que vou ser solista convidado, e os concertos como sideman de vários grupos.
DISCOGRAFIA SELECCIONADA
Como líder:
“Timbuktu” (Tone Of A Pitch, 2006)
“Amplitude” (sPILL) (Tone Of A Pitch, 2005)
“Howler” (Tone Of A Pitch, 2005)
“O Osso” (Tone Of A Pitch, 2002)
Como sideman:
TOAP Colectivo "Vol.1" (Tone Of A Pitch, 2006)
Mário Franco + David Binney "This Life" (Tone Of A Pitch, 2006)
Nelson Cascais “Nine Stories” (Tone Of A Pitch, 2005)
Bernardo Moreira Sexteto “Ao Paredes Confesso” (Universal, 2003)
Publicado por António Branco às julho 27, 2007 06:17 AM
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