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Gonçalo Prazeres
Num país carenciado em matéria de sopradores, o Improvisos Ao Sul falou com Gonçalo Prazeres, um mais promissores saxofonistas nacionais, a propósito da sua excelente maquete, editada recentemente, mas também sobre o seu processo de aprendizagem, as suas influências e o futuro...
Improvisos Ao Sul: Tem disponível uma maquete com o projecto Zurugudu onde dá mostras de querer desenvolver uma sonoridade própria, mas estabelecendo pontes de contacto com a tradição do jazz. Estou certo?
Gonçalo Prazeres: Sim, embora isso aconteça naturalmente. Nas minhas composições faço uma mistura entre escrever o que oiço e experimentar conceitos, ideias harmonicas e melódicas que ouvi ou aprendi teoricamente. Como oiço muita música de estilos e épocas diferentes, principalmente Jazz e como me considero um aprendiz que procura sempre a aprender com os mestres do Jazz, as minhas composições acabam por sofrer influências da tradição do Jazz. Creio que a minha música neste momento é uma mistura entre a minha identidade musical e pessoal e as minhas influências. Acho que é uma etapa normal na vida de um músico ou de um criativo de qualquer área.
Apresente-nos, de forma breve, os temas incluídos na maquete...
Marsupilami: O Marsupilami é um personagem da banda desenhada do Spirou. A ideia inicial era escrever um blues sem ser um blues típico. Não ficou nada semelhante a um blues. Depois de uma ida à SPA passou a chamar-se Marsupilami Gang. Parece que há mais fãs do Spirou em Portugal.
A Fuga: Agora chama-se “A Fuga dos Garanguejos” (depois de ir à SPA). Tema even eights com um pedal. Por cima do pedal temos sempre acordes menores que alteram de modo consoante a melodia.
Cenas: Acordei um dia com o primeiro motivo na cabeça. Depois demorei bastantes dias a desenvolve-lo. É um tema em 5/4. Depois da secção de solos do contrabaixo e do saxofone vai para um loop onde é o solo de guitara e que funciona como uma coda. Nesta parte tentei inverter os papéis e ter o saxofone a acompanhar a guitarra.
Darth Cat: Queria escrever algo que soasse um pouco mais hard core. Não ficou nada parecido mas gosto do resultado. Existem algumas influências de conceitos de dois professors que tive na Berklee: Ed Tomassi e George Garzone.
I Love You: um standard que gosto bastante e que arranjei para uma aula na Berklee. Creio que o arranjo resulta relativamente bem, embora já não o toque.
Nuvem: Agora chama-se “Aglomerado” (SPA, mais uma vez!!). Tema 3/4 cuja ideia original vem de um dos meus primeiros temas. Considero-o um dos meus primeiros temas e por isso sinto que não tem muito a ver com os temas novos.
Body And Soul: uma balada que gosto muito, que gravámos porque ainda tinhamos bastante tempo livre no estúdio e fizemos alguns takes de uns standards.
Tem tido oportunidades para a apresentar ao vivo?
Tenho tido algumas oportunidades. Embora as coisas demorem um pouco a começar, o que é normal. Os músicos com que gravei a maquete vivem nos E.U.A. por isso procurei outros músicos. Depois de alguns concertos consegui começar a manter um quarteto fixo que funciona bastante bem. Trata-se do Nuno Costa na guitarra, o João Custódio no contrabaixo e o João Rijo na bateria. Quando é possível o meu grupo funciona em quinteto com o Jeffery Davis no vibrafone. Gosto bastante dessa sonoridade para a minha música.
Está envolvido noutros projectos?
Tenho um projecto mais eclético que tem como base a música improvisada mas com influências bastante variadas como o jazz, rock, metal, música electronica, etc. Chama-se Trisonte e tem uma formação um pouco diferente (embora haja cada vez mais grupos com essa instrumentação). É um quarteto com: saxofone alto com e sem efeitos; guitarra com muitos efeitos; bateria e percursão; teclas; loops e outras experiências sonoras. Futuramente terá também uma VJ. Além deste projecto toco regularmente com a Reunion Big Jazz Band e como freelancer.
Como se posiciona enquanto músico?
Pergunta difícil. Eu tento ter mente aberta e ouvir estilos e músicos distintos. Considero que estagnar é o princípio do fim e por isso tento sempre evoluir e desafiar-me. Com isto em mente creio que sou um músico um pouco eclético dentro do Jazz e da Música Improvisada.
Quais as memórias que guarda dos primeiros contactos com o jazz?
Lembro-me de ser pequeno (não sei com que idade) e ouvir em casa a Ella Fitzgerald, o Louis Armstrong e o Frank Sinatra. Era divertido, principalmente porque via também muitos filmes com o Gene Kelly e o Frank Sinatra e pertencia tudo ao mesmo universo. Mais tarde percebi que era Jazz e que me influenciou nos gostos musicais.
Começou pela guitarra, só começou a tocar saxofone algo tarde... Porquê a mudança de instrumento? O que encontrou nos saxofones que não tinha na guitarra?
Quando era novo gostava de brincar com um saxofone de plástico. Mas a guitarra é um instrumento bastante mais acessível e comecei por aí. E gostei. Toquei alguns estudos clássicos, depois blues e rock. Aí descobri o prazer de improvisar. Depois de passar por bandas de Metal, Hard-Core e Rock/Pop, comecei a estudar jazz por causa da improvisação. E comecei a ouvir Jazz com mais atenção. Quando terminei o curso superior ofereceram-me um saxofone. Era inevitável que começasse a toca-lo mais tarde ou mais cedo. Creio que a minha voz musical é no saxofone.
Estudou nos Estados Unidos. Como foram essas experiências?
Foram bastante boas. Tive a oportunidade de estudar com alguns professores incríveis que ainda me inspiram e influênciam muito. Muitos deles estiveram em contacto directo com os “grandes” do Jazz. Conheci pessoas de todo o mundo com culturas e gostos musicais muito diferentes. Por ter vivido rodeado só de música e músicos durante 3 anos e meio, descobri que necessito de todas as áreas da vida para ser o músico que quero ser e que quero evitar fazer música só para músicos. Creio que ainda é um pouco cedo para perceber o nível do impacto que teve viver nos Estados Unidos e de estudar na Berklee.
Quem são os músicos cuja influência mais pesa no seu som?
Tenho influências muito diversas. Uns músicos influênciam o som, outros a improvisação, outros a composição, outros os conceitos e ideias. Alguns dos músicos que me influênciam são: Coltrane, Chris Cheek, Mark Turner, Cannonball, Herbie Hancock, Joe Lovano, Perico Sambeat, Thelonious Monk, Dave Holland, Brad Mehldau, Carlos Bica, André Fernandes, Frank Möbus e muitos, mesmo muitos mais.
É sensível aos ventos jazzísticos que sopram do norte da Europa?
Creio que sim embora não seja uma coisa em que pense muito. Normalmente ou gosto da música ou não. Posso gostar do conceito por detrás mas não gostar do resultado final. Também não sou muito consciente dos estilos ou correntes jazzísticas que oiço. Vindos do Norte da Europa gosto muito de ouvir Der Rote Bereich, Frank Möbus, Nils Wogram, Esbjörn Svensson, entre outros. Também gosto muito de música improvisada/free. De ouvir e de a tocar, embora não goste de toda. Reconheço que devo e quero investigar mais os “ventos” do norte da Europa.
Quando espera que o seu disco venha a ter edição comercial?
Este disco é apenas uma maquete. Mas tenho planos para fazer outra gravação no final do ano, talvez com a formação actual, e espero poder edita-lo no ano seguinte. Vamos ver como as coisas correm.
Publicado por António Branco às julho 10, 2007 06:20 AM
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