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Mário Franco (foto de Rodrigo César)
Há muito que o contrabaixista Mário Franco é um dos mais destacados músicos nacionais de jazz. Mas a sua intensa actividade musical vai muito mais além das fronteiras jazzísticas (o jazz tem fronteiras?), como atesta o seu vasto e eclético currículo. O Improvisos Ao Sul foi ao seu encontro.
Como surgiu a música no seu percurso de vida? E quando começou a interessar-se pelo jazz (é sócio do Hot desde 1982...)?
A música surgiu na realidade desde o berço. Lá em casa toda a família ouvia a rádio. Os meus pais tinham por hábito adormecer-me ao som de música. Adormecia muito bem como quase todos os bébés, mas um dia viram que eu não dormia, estava sim muito atento com um concerto em especial, o concerto para violino em Ré Maior de Brahms (opus 77). Era o 2º de três andamentos, o Adágio, porque o 1º e o 3º não dão bem para dormir!. Curiosamente o concerto começa com o tema nos baixos, e Brahms é um dos compositores que, quanto a mim, dá a devida importância aos baixos. Não funcionam só no papel de acompanhador, tomam também parte activa nas melodias principais. Eram portanto utilizados na sua plenitude, ele tinha plena consciência do papel dos contrabaixos na orquestra; aliás com o pai contrabaixista só podia. Estive também uns meses em África, na Guiné, onde o meu pai cumpriu uma comissão de serviço, e onde ouvia os tambores dos rituais indígenas. Nunca mais esqueci esse som. Mais tarde influenciado, como já disse, pelo que ouvia na rádio (lembro-me que havia uma música que soava de maneira diferente e que eu não sabia bem como se chamava), fixei alguns nomes de músicos e lembro-me de ir comprar os meus primeiros discos de Jazz com os meus pais aos oito anos: uma colectânia de pianistas de Jazz entre os quais estão músicos como Fats Waller, Earl Hines, Phineas Newborn, Lou Levy, Bud Powell… e outros discos com orquestras do Benny Goodman, Duke Ellington, Count Basie. Ia sempre vasculhar e procurar nas discotecas dos amigos dos meus pais, para ver se eles tinham discos de Jazz, e foi assim que descobri o Charlie Mingus por exemplo. Quando tive o meu rádio com gravador foi um passo em frente, gravava tudo o que podia. Uma substancial colecção de cassetes. O piano sempre foi um instrumento com uma certa tradição na família (a minha avó e a minha tia estudaram piano, a minha irmã hoje é pianista e reside nos EUA). Com a minha avó, lembro-me bem de ouvir muita música (e falar sobre o que se ouvia), houve um disco em particular entre muitos outros que ouvíamos com muito agrado, que era o Great Connection do Oscar Peterson. Lembro-me de ela dizer: “estas improvisações em acordes são incríveis”. Lembro-me também de ver com ela um concerto de gospels e de ter ficado louco com a energia das vozes e o som electrizante do grupo (o órgão soava mesmo bem). Já depois de adolescente continuava a vasculhar as discotecas alheias, mas desta feita o alvo eram os pais da minha namorada. Tinham uma cultura jazzística bastante apreciável, descobri nomes como Wes Montgomery no disco “Boss Guitar” ou Sonny Fortune “Awakening”. Tudo isto contribuiu para o meu gosto por esta música, a procura nunca mais parou, consumo jazz há muito tempo. Viciado mesmo.
Iniciou os seus estudos musicais na Centro de Estudos Gregorianos. Estudou também na Academia de Amadores de Música e pela Escola do Hot. Como caracteriza estas diferentes fases da sua evolução/aprendizagem enquanto músico? O que guarda de cada uma delas?
Foram essenciais. Representam diferentes fases de maturação musical. Deram-me as bases necessárias para começar um trajecto que quanto a mim não acaba. Uma constante procura que se apoia em pilares graduais do saber musical ao longo dos anos. Estou a lembrar-me por exemplo da professora Júlia D’Almendra (método Ward) nos gregorianos (onde fui colega do Vasco Pearce de Azevedo) - fiquei com o hábito de cantar tudo e mais alguma coisa o que foi essencial para o futuro. Recordo também uma querida professora minha Maria José Godinho (professora particular) que nas suas aulas de formação musical (também com a minha irmã) nos propunha como parte do TPC compôr um trecho musical. Fiquei assim, desde muito novo, com o hábito de escrever todas as ideias que tinha. Na AAM com a Cristina Brito da Cruz (método Kodaly), minha professora também de formação musical, chegámos mesmo a formar um coro com junção de duas turmas (aí fui colega do Sérgio de Azevedo, do Pedro Teixeira e do Tiago Marques, entre outros bons colegas). Mais tarde o próprio Fernando Flores, meu professor de contrabaixo, e Pedro Rocha na análise e técnicas de composição, foram marcantes na minha formação.
Começou logo pelo baixo eléctrico/contrabaixo? Porquê?
De facto não comecei nem pelo baixo eléctrico nem pelo contrabaixo. Antes aprendi canto no Centro de Estudos Gregorianos e harpa no Conservatório Nacional (porque não tinha vaga em piano). Mais tarde aprendi a tocar guitarra (tinha um grupo de Rock com outro vizinho meu mais o José Castro e o Bruno de Almeida). Mais tarde aprendi o baixo eléctrico com o António Ferro (na minha fase “Jaco Pastorius”…). Só depois é que veio o contrabaixo com o professor Fernando Flores na Academia de Amadores de Música (onde fui colega do Bernardo Moreira, estudávamos juntos…) e o David Gausden já na escola do Hot. Foi também bastante importante ter aprendido piano com a minha irmã e com o José Castro, que era quase como se fosse meu irmão, passava muito tempo lá em casa e fazia parte das tertúlias musicais em casa dos meus pais (tinham quase sempre a sala cheia de instrumentos, baterias, guitarras, vibraphones, saxophones, etc…). Eram autênticas Jam(s) sessions com músicos e bons amigos como o André Sousa Machado, o Sérgio Pelágio, o Bernardo Sassetti o José Salgueiro... Ouvia-se muita música, compunha-se e experimentáva-se. Muitos ensaios houve com músicos como o António Pinho Vargas, Mário Laginha, o Carlos Martins, o João Paulo entre muitos outros…
Entre 1985 e 1987 tocou com o Miso Ensemble, formação com a qual explorou outros domínios da música improvisada. Como foi esta experiência?
Foi uma experiência muito enriquecedora. Aprendi que existiam outras maneiras de estar na música. Tinha a meu lado músicos improvisadores que não estavam directamente ligados ao Jazz. Embora já tivesse apresentado composições dentro de outro contexto musical nas audições da AAM, utilizando instrumentos como o clarinete baixo e o oboé, foi com o Miso Ensemble que ouvi pela primeira vez improvisos em instrumentos como o fagote e a flauta transversal. Esta experiência foi partilhada com outros músicos de jazz, entre os quais o Sérgio Pelágio. Havia uma linguagem em comum.
Pergunta sacramental nestas ocasiões: quais são as suas maiores influências? Quais os músicos que mais contribuíram para "moldar" o seu som?
Vou só falar de alguns músicos, senão ocupava muito espaço. E é melhor só falar de contrabaixistas, e só na área do jazz. Eles aparecem na minha vida em alturas diferentes, mas ligados a projectos de compositores bem definidos. Houve um disco muito importante que eu no fundo ouvi desde muito cedo. “Bahia” do John Coltrane. Porque o meu vizinho também gostava muito de jazz, e assim, quando eu estava deitado, ouvia as notas do contrabaixo (as frequências mais graves são aquelas que melhor “atravessam” as divisões de um prédio), até ao dia em que ouvi finalmente o disco in loco... foi assim “que conheci” o Paul Chambers. Houve também uma altura em que só ouvia Charlie Mingus (com o maravilhoso Eric Dolphy). Depois o Scott LaFaro e o Eddie Gomez em duo e trio com o Bill Evans. O Ron Carter (ESP) com o Miles Davis. Mais tarde, quando comecei a ouvir discos da editora ECM, apareceram o Charlie Haden (Survivors´Suite em formações com o Dewey Redman e o Paul Motian). O George Mraz, que eu já conhecia noutros contextos musicais, surgia agora com o maravilhoso quarteto do John Abercrombie (Arcade). O Dave Holland (Gateway) e o Gary Peacock (Tales of Another). O Scott Colley… Enfim são muitos…
De todos os "jazzes", qual é o seu jazz?
Não sei. Vou descobrindo. Vou tentando caminhos diferentes com base no meu trabalho contínuo. Tendo em conta que hoje em dia o jazz abrange um largo espectro e não se cinge só a um género ou estilo e está em constante movimento e evolução, é-me um pouco difícil definir já o meu espaço. Penso que ainda é cedo. É preciso mostrar mais trabalho.
Como se define enquanto músico e compositor?
Não me defino, vou-me definindo. Mas penso que é melhor perguntar a quem ouve aquilo que eu toco e escrevo na área do jazz. Penso que aquilo a que nós chamamos jazz, hoje está em constante modificação, como já referi anteriormente, em constante update; hoje em dia assistimos à inclusão de outros géneros musicais nos domínios do Jazz, dando origem a diferentes modos de expressão, contribuindo assim para que a música (esta arte de organizar os sons) avance e se actualize. Para isso é necessário arriscar sem medo. O jazz difere dos outros géneros musicais essencialmente por causa do elemento improvisação e do elemento ritmo que são particulares. O restante não se inventou, já estava feito, foi-se buscar à música dita clássica, ocidental. O importante é que, apoiados na tradição jazzística, tocando também esse reportório (standard), se possa dar o salto em frente, escrever e/ou tocar aquilo que ouvimos interiormente, aquilo que é nosso, aquilo que é genuíno, e poder dizer.
Que papel atribui à improvisação na sua música? É um elemento central?
Claro que sim. No que toco, no que escrevo, a improvisação é muito importante. Todo o compositor é na sua essência um improvisador. E eu, candidato a compositor, não fugo à regra. Para além disso há que ter em conta que no Jazz não é só entregar partituras e esperar que a música soe, e para isso é preciso escolher os músicos certos para cada projecto. Quando escrevo estou consciente de que o faço também em função dos músicos que escolho e da sua criatividade individual; foi o que aconteceu, por exemplo, no meu álbum “This Life”.
Passou igualmente pela música dita "clássica" (tocou com o Orquestra Sinfónica Juvenil, por exemplo), onde trabalhou o repertório clássico. O que considera que a sua abordagem ao contrabaixo ainda guarda da ligação à música clássica?
De facto existe, e sempre existiu, uma forte ligação não só à música dita clássica como à música em geral, nomeadamente aquela que eu ouvia em casa dos meus pais como já referi. Lembro-me de o meu pai colocar no seu atelier colunas pequenas em todas as salas para assim independentemente da sala onde se encontrava, continuar a ouvir a música que escolhia. Lembro-me também de aí estudar para os testes do liceu ao som das minhas múltiplas cassetes: Dexter Gordon, John Coltrane, e ao som de um dos nossos programas de rádio favoritos, o “Em Órbita”. A OSJ foi, e continua a ser, muito importante na formação de jovens músicos, foi um prazer e um privilégio trabalhar com o maestro Christopher Bochman. Entre outros trabalhos, por exemplo, aqueles que fiz com o José Peixoto e certos trabalhos que faço com o João Paulo, ou nas colaborações com o Pedro Caldeira Cabral, é que se nota mais a presença dessa escola ligada à música dita clássica.
Ao longo da sua carreira tem demonstrado uma grande versatilidade, tocando em contextos musicais muito diferenciados...
Não sei se versátil é a palavra mais correcta para explicar o facto de estar presente em diversos projectos musicais em que eu participei até à data. O grande desafio é encontrar o equilíbrio entre a nossa maneira de tocar e aquilo que nos é proposto tocar. E penso também que existe algo que funciona como denominador comum em todos estes projectos, e que de certa forma está ligado ao jazz.
O seu disco "This Life" foi bastante elogiado pela crítica internacional. Como recebeu estas menções elogiosas?
Como um incentivo para continuar a trabalhar. Não só no estrangeiro como também em Portugal o trabalho teve boa aceitação por parte da crítica. “This Life” que gravei para a editora Tone Of A Pitch é quase auto-biográfico. Representa uma cor, um estado de espírito. Representa parte da minha vida, a minha família, os meus amigos, parte dos meus trabalhos… Uma etapa. Tenciono continuar com este projecto.
Em sua opinião existe um "jazz português" ou jazz feito em Portugal?
O jazz para mim é uma linguagem universal e continuará no futuro como tal, ultrapassando fronteiras entre países e culturas, e é claro que existe o jazz feito por músicos portugueses. Penso que Portugal está recheado de mais e bons músicos na área do Jazz e com uma nova geração bastante talentosa, em alguns casos já com uma personalidade bastante definida em relação à pouca idade. Vão com certeza dar vazão ao seu potencial se tiverem espaço para isso. O que hoje em dia acontece é que esse espaço é bastante reduzido. É necessária uma maior aposta no Jazz feito por músicos portugueses por parte dos directores nas programações dos diversos teatros e/ou nas remodeladas salas de concerto de que o país agora dispõe. Mas vejo, em contra partida, que, embora escassos, certos organizadores e certos festivais de Jazz estão a incluir mais músicos portugueses na sua programação, e isso, quanto a mim, é um exemplo a continuar.
Como vê o actual panorama do jazz no nosso País?
Vejo Portugal, tal como a cultura deste país, como um deserto com alguns oásis. Esses oásis são algumas Câmaras que apoiam o Jazz, alguns festivais (que felizmente são agora mais do que eram mas não chegam), alguns clubes e outros espaços menos convencionais, e projectos pessoais levados a cabo a muito custo e com poucos apoios, por vezes até nenhuns, por parte do Estado. José Eduardo e a escola do HCP foram decisivos para o início do ensino do Jazz em Portugal, e continuam a sê-lo. Desde aí passaram a existir mais escolas, mas penso que é aínda necessário haver mais apoios ao nível do ensino. Por exemplo, existem escolas de Jazz que se mantêm graças a uma certa carolice, ou projectos como o do José Menezes “O Jazz vai à escola” (projecto para estudantes dos 9 aos 18 anos) que é fundamental para incutir o gosto pela música nos jovens, mostrando afinal do que é que esta música trata e como funcionam os músicos dentro de um grupo. Isto é muito importante para formar, também. o público do futuro. A única escola superior do país na área do Jazz, o ESMAE, está situada no norte do pais e é um exemplo a seguir. É dificil ser músico de Jazz em Portugal, poder pagar todas as despesas e viver com uma certa qualidade… muitos dos músicos têm outros trabalhos, outras ocupações, como eu, por exemplo que sou bailarino da CNB desde 86… E não vou fazer comparações com a nossa vizinha Espanha (só clubes rondam os 60…) porque então aí a esta entrevista ia ficar deprimente…
O que podemos esperar do Mário Franco nos tempos mais próximos? Estará, por exemplo, um disco a solo nos seus planos?
Tenho vários projectos na calha. Para além do trabalho de composição na área da dança e do teatro, estou a trabalhar em novos projectos no jazz, todos eles quase ao mesmo tempo, e, sendo assim, sairá em CD aquele que eu achar que está pronto para ser gravado. Talvez um trio , talvez um quarteto, logo se verá… O disco a solo está nos meus planos. Tenho, e sempre tive, alguns temas que podem ser tocados a solo, mas ainda não suficientes para fazer um álbum, e por enquanto não sinto essa necessidade. Mas no futuro menos próximo, com certeza. Será a continuação de um trabalho que iniciei nos meus tempos de estudante de contrabaixo na AAM.
(entrevista de base realizada para a elaboração do Perfil de Mário Franco, prublicado no n.º 12 da revista Jazz.pt)
Publicado por António Branco às maio 22, 2007 07:11 AM
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