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Afonso Pais
Afonso Pais é um dos mais talentosos músicos nacionais da nova geração. Prestes a editar “Subsequências”, o seu segundo disco com líder, falou ao Improvisos Ao Sul sobre as principais etapas do seu percurso e dá-nos a conhecer a sua visão sobre o actual panorama do jazz em Portugal.
O interesse pela música chegou bem cedo à sua vida. Quer falar-nos um pouco sobre esses primeiros tempos?
Tendo tido acesso ao piano em casa dos meus pais, o som foi provavelmente a minha primeira curiosidade, a qual me iniciou na busca por notas. Da procura de correspondências entre os sons que ouvia e as notas que os “revelavam” surgiu um primeiro encontro com o estímulo auditivo. A descoberta de que podia recombinar notas, integrar outras estranhas ou simplesmente saber como produzir melodias imaginando o teclado, deixou-me irremediavelmente preso à música.
Começou pelo piano, e só depois optou pela guitarra. Por alguma razão especial?
Abordei a guitarra quando finalmente entendi que “o tema” que qualquer guitarrista expõe de cada vez que decide pegar no instrumento não é uma música, mas sim a afinação do mesmo. Só me dei conta relativamente tarde...
Quando, em 1995, ingressou na Escola de Jazz do Hot já demonstrava um grande domínio do instrumento e uma musicalidade bastante desenvolvida. Qual foi a fórmula, para tão novo, exibir essa maturidade?
Para o meu imaginário criativo contribuíram todas as influências musicais (e não tanto) com as quais tive contacto, voluntária ou involuntáriamente. Já no que toca ao domínio técnico do instrumento, talvez porque para mim a aprendizagem da música se processe irremediavelmente do intuír para o racionalizar, nunca tive um mapa detalhado sobre o qual pudesse traçar um caminho metódico e seguramente viável rumo ao destino. Por outro lado, descobrir soluções técnicas de concretização para ideias que tenha, leva-me a outras ideias que me mostram outros caminhos técnicos a percorrer. Resumidamente, aguardo sempre que a ideia musical dite a técnica a desenvolver, nunca o contrário.
Como foi a passagem pela Escola do Hot, enquanto aluno?
No Hot Escola, e ao longo de dois anos de frequência, fui introduzido a duas facetas que me parecem ser essenciais no que respeita ao caminho do músico improvisador: o bom ouvinte e o praticante incurável. Praticante da música, em qualquer das suas vertentes, incapaz de estar afastado de um instrumento por mais de uns dias, sob pena de uma depressão. Quanto ao bom ouvinte, na vertente do consumidor as coisas mudaram muito desde então, faço parte da geração dos orgulhosos proprietários de exemplares originais de CD’s, e até à data invisto e afeiçoo-me a cada um dos títulos da minha colecção.
Participou num encontro anual da IASJ, em Siena, Itália. Como foi estar ao lado de talentosos jovens músicos de todo o mundo?
Foi verdadeiramente um quatro em um, aprendi no encontro da IASJ que o Jazz não tem iluminados, tal como não tem geografia, mas sim alunos mais ou menos trabalhadores, com uma paixão a condizer. Foi um “choque” encorajador para mim presenciar tanta competência e variedade. Durante o evento, sem saber, fui seleccionado para integrar uma Big Band Europeia, EJYO, em que participei no ano seguínte (1998). Na semana subsequente ao meeting fiz os meus primeiros gig’s de Jazz fora de Portugal, em Umbria. Aí assegurei, no contexto de um workshop da Berklee, uma bolsa de estudos que me permitiria ír para os Estados Unidos.
Ganhou uma bolsa completa para estudar em Boston (na Berklee College of Music) mas optou por ir para a New School, em NY, onde se licenciou. Como foi esta experiência?
Fui para N.Y. com 18 anos, sem noção do que me esperava, sem maturidade para verdadeiramente saber como lidar com tanta novidade. Creio que esse facto tornou a estada mais preenchida de surpresas, boas e más, mas não tenho dúvidas de que essa inconsequência trouxe experiências que de outra forma não teria tido, tal como Jam Sessions diáriamente até às 6h da manhã, com aulas às 10h na New School. Foi um periodo em que trabalhei muito, contactei com alguns dos músicos que sempre admirei, moldei a minha auto-disciplina. Voltei a N.Y. para uma segunda temporada de 3 anos, desta feita com o objectivo de tocar e fazer contactos, e cumprido o proposto dei comigo numa rotina de actuações onde por regra o conteúdo artístico era secundário, os cachets insuficientes para sustentar os gastos...
Quais são as suas referências fundamentais (guitarristas, mas não só)?
Como são demais para enumerar, vou contextualizar só alguns: Herbie Hancock, final dos 60’s (“The Prisioner”), Thelonious Monk (at Carnegie Hall), Kevin Hays (Open Range), Jim Hall (“Undercurrent”), Wes Montgomery (“Smokin’ at the Half Note), Peter Bernstein (“As One”, de Larry Goldings), John Scofield (Meant to be), Gracham Moncur III (Evolution), Joe Henderson (Power to the people), Wayne Shorter (Native Dancer), Miles Davis (Water Babies), Terence Blanchard (Discernment), Tom Jobim (Matita Perê), Edu Lobo (Cantiga do Longe), Hermeto Pascoal (Festa dos Deuses), Chico Buarque (Construção), Béla Bartók (Concerto for Orchestra), algum Sérgio Godinho, Vitorino ou José Mario Branco.
É hoje docente da Escola do Hot. Quais as principais mensagens que procura transmitir aos seus alunos?
Para além do Hot lecciono na JBJazz, ESMAE (no Porto), e ocasionalmente no Conservatório de Música da Madeira. Dediquei semanalmente duas tardes ao ensino, e sou um professor realizado quando o aluno atinge um patamar em que é capaz de esboçar o seu próprio “auto-retrato”, lidando com as suas limitações, transformando-as em traços da sua personalidade musical.
Em sua opinião, a que se ficará a dever o facto de em Portugal terem surgido, nos últimos anos, tantos guitarristas de óptimo nível e com estilos próprios? Em sua opinião, porque não se passa o mesmo em relação a outros instrumentos?
Nos últimos anos surgiram muitos músicos novos, alguns deles com projectos muito interessantes e uma dinâmica própria de quem tem uma confiança forte naquilo que está a oferecer. Creio que o facto de a maioria percentual destes lideres tocar guitarra não é um acaso, mas sim uma estatística mundialmente comprovada, como revela o número esmagador de guitarristas inscritos nas escolas de Jazz pelo mundo fora. Numa altura em que, em Portugal, praticamente todos os “novos” guitarristas têm ideias maturadas e vontade de apresentar a sua música, há inevitávelmente uma confluência de informação, a par dela um estímulo à creatividade e individualismo, como contrapeso.
Para quando o sucessor de "Terranova"? Já sabe como vai ser? E em que pé está o projecto "Subsequências", com Edu Lobo?
“Subsequências”, em Trio com Carlos Barretto e Alexandre Frazão, com a voz do convidado especial Edu Lobo, será editado no primeiro trimestre de 2007. Tal como o nome indica, representa um trabalho só possível na continuidade de “Terranova”. Creio que em muitos pontos é mais representativo da minha paixão pelo improviso, e julgo revelar um enredo de composições mais maduras, de audição simples e interiorização involuntária. O contributo do cant’autor Edu Lobo foi fundamental para o universo que pretendo ilustrar: A combinação do formato “canção sofisticada” vista da perspectiva do músico improvisador, e o universo do Jazz.
Como se classifica enquanto compositor? Esteticamente, onde se filia a sua escrita?
A música que idealizo é desde logo, e em simultâneo, uma consequência e antevisão do meu imaginário enquanto improvisador. A cada tema que componho tento conferir uma característica única, um conceito que o identifique e diferencie dos demais. Por essa razão muitos dos temas acabam por ser “tubos de ensaio” que me encaminham para outros, e dessa forma só uma fracção do resultado criativo chega ao repertório de disco, ou de concerto. São estes temas escolhidos que eventualmente representam a linguagem com que me expressarei, como improvisador.
Como analisa o actual panorama do jazz em Portugal (músicos, discos, editoras, etc.) e como prevê que o mesmo evolua nos próximos anos
Para a geração de músicos de que faço parte o momento não é particularmente favorável. A produção artística ultrapassa largamente a absorção do mercado, tanto pela crónica falta de interesse ao nível da programação de festivais de Jazz, como pelo espirito quase nulo de aposta por parte das editoras, passando por um conservadorismo suspeito no que toca à coexistência de gerações (musicais e/ou etárias) no mercado de trabalho, salvo excepções. Parece-me essencial que haja um reconhecimento das mais valias, e que o catalogar de “músico talentoso”, ou “geração com potencial”, se converta numa apreciação séria, só assim poderá haver uma evolução saudável e natural do panorama. Nos últimos anos o Jazz nacional deu provas do seu valor, com trabalhos dos mais variados estilos, liderados pelos mais variados músicos: Joana Machado, com quem trabalho proximamente desde 2001, Jorge Reis, Nelson Cascais ou Marco Franco são apenas alguns exemplos, a par dos meus colegas de instrumento que muito admiro, e cujos trabalhos sigo atentamente. É inevitável que lentamente a situação melhore, vejo que há uma receptividade crescente por parte dos ouvintes, casuais ou aficcionados, só falta mesmo uma estrutura empenhada em levar esta música ao público de uma forma eficaz.
Publicado por António Branco às março 22, 2007 06:03 AM
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