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fevereiro 14, 2007

ENTREVISTA - HÉLDER MARTINS

Jazz em Portugal 1920-1956

Não são muitos os livros de autores portugueses que versem o jazz e a música improvisada. Os publicados por José Duarte, Jorge Lima Barreto, Rui Eduardo Paes e... pouco mais. No final de 2006 foi publicado o livro "Jazz em Portugal (1920 – 1956): – Anúncio - Emergência – Afirmação", da autoria de Hélder Bruno Martins - musicólogo, investigador científico (licenciado em Educação Musical pela Escola Superior de Educação de Coimbra, mestre em Ciências Musicais pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e doutorando em Musicologia na Universidade de Aveiro), director pedagógico da Academia de Música da Lousã e da Escola Jazz Ao Norte - que traça uma panorâmica sobre a evolução do jazz no nosso país, desde 1920 - altura em que começaram a surgir na imprensa nacional as primeiras notícias que falavam desta(s) música(s) - e 1956, data chave por ser o ano em que tocou entre nós a célebre orquestra de Count Basie. Na sequência da apresentação do livro em Beja - no passado dia 3 de Fevereiro, na Cafetaria do Pax-Julia Teatro Municipal - o Improvisos Ao Sul falou com Hélder Martins, para conhecer melhor os contornos deste seu livro...

Conte-nos um pouco a história da sua ligação à música (e ao jazz, em particular). Para além de investigador e docente é também músico... Como é conciliar todas estas vertentes?
A música faz parte de mim desde o tempo em que tenho consciência de existir... os discos que os meus pais ouviam, os brinquedos «com» e «para fazer música», as primeiras peças que toquei no piano (por volta dos 5 anos), as actuações nas festas de Natal da Escola Primária da Lousã... Com 11 anos entrei para o Conservatório de Música de Coimbra - curso de piano. Quando frequentava o 5.º grau, eu e um amigo soubemos que se iria realizar um workshop de Jazz no Conservatório de Música de Aveiro, nas férias de Natal, e lá fomos...Fiz 15 anos, no dia 15 de Dezembro, em pleno Workshop com Carlos Martins e Carlos Barreto! A partir dessa altura o meu pensamento musical nunca mais foi o mesmo! O Jazz passou a ser parte integrante do meu raciocínio harmónico, melódico e rítmico, e a estar verdadeiramente presente nas minhas opções estéticas (ao lado da música erudita europeia). Também ouvia Rock Alternativo, Gótico... enfim, como qualquer adolescente que viva intensamente e naturalmente esse fantástico período da vida! Cheguei mesmo a ser vocalista de uma banda de rock (até fomos ao Rock Rendez Vous em 1994... imagine! A banda chamava-se Vonavêmor... lembro-a com saudades! A mesma saudade que se tem dos amores e paixões de verão da adolescência!). Ao prosseguir os estudos no Conservatório de Música de Coimbra decidi optar pelo piano Jazz, o que me levou a estudar com Paulo Gomes na Escola de Jazz do Porto. Ao mesmo tempo descobria, nas disciplinas do Conservatório, a Musicologia. Decidi que era isto que queria fazer! Licenciei-me em Educação Musical na Escola Superior de Educação de Coimbra (apesar de saber que não era isso que queria fazer) para ter bases sólidas e poder ingressar numa carreira de investigação. Foi assim que entrei para o mestrado em Ciências Musicais da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e apresentei, em Abril de 2005, a tese «O Jazz em Portugal: da sua emergência à sua afirmação com o Hot Clube», sob orientação do Prof. Doutor José Maria Pedrosa Cardoso (musicólogo). Actualmente sou investigador e preparo o doutoramento em Musicologia na Universidade de Aveiro sob orientação da Professora Doutora Susana Sardo (etnomusicóloga). Não me considero músico... sei como se toca!!! gosto de tocar e preciso, até, de tocar! mas isso não faz de mim músico! Existe algo mais para além de tudo isto!... Músico? Sim, em algumas correntes e estilos talvez possa desempenhar um bom papel!!! Não é fácil conciliar de facto... e a prova disso é que já não estudo piano há muitos anos... e, inevitavelmente, tem consequências negativas no que respeita à performação, desempenho! Quanto ao facto de vir a ser docente, no segundo semestre, na Escola Superior de Educação da Guarda, é algo que, penso, será conciliável (e desejável que o seja) com a minha actividade de investigador. Cada vez mais se exige a um docente do Ensino Superior que se actualize e que produza conhecimento, só assim se pode gerar massa crítica, que tanta falta nos tem feito nos últimos anos (500 anos!!!... no mínimo).

O livro "Jazz em Portugal (1920 – 1956): – Anúncio - Emergência – Afirmação" decorre de uma investigação que desenvolveu para a sua Tese de Mestrado, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Como surgiu a ideia de investigar a história do jazz em Portugal, em concreto a dos seus alvores?
Desde que me apaixonei pela Musicologia que percebi que a produção científica sobre Jazz em Português e, concretamente, acerca deste comportamento expressivo em Portugal era inexistente. As obras que referem o Jazz em Portugal são trabalhos importantes, contudo, não são mais do que relatos de experiências de vida, redigidos de uma forma (quase) poética, estilística, lírica, até! Pensei que o meu contributo pudesse ser útil ao tratar este fenómeno numa perspectiva etnomusicológica (analisando o impacte de Jazz em Portugal, a sua relação com o poder e vice-versa, a reacção social e os comportamentos que gerou, etc.). Esta foi a principal motivação que me levou a fazer este estudo. Assim, decidi analisar o período mais sombrio, controverso, polémico: a «chegada» do Jazz a Portugal... e ainda há muito a fazer acerca deste período!

Para quem ainda não teve a oportunidade de ler o livro, pedia-lhe que resumisse o conteúdo de modo a aguçar a curiosidade dos potenciais leitores...
O livro, como se diz na introdução, é a adaptação da tese de mestrado despida, tanto quanto possível, de conceptualismo, academismo, no sentido de aproximar o leitor ao tema sem, contudo, perder rigor! O livro é, podemos dizer, uma análise da cultura, da sociedade e da política portuguesa, tendo como personagem principal o Jazz. A década de 20 é um marco histórico para o Jazz, mesmo em Portugal: é o Anúncio do Jazz em Portugal. Julgo que se apresentam informações interessantes a este respeito: artigos da época que não deixam de ser, para nós, de hoje, «bem humorados», a prova da presença de Sidney Bechet em Portugal, lista de rádios nacionais, de clubes, etc.. Depois o Estado Novo e a sua pragmatização de valores provenientes da matriz cultural portuguesa e que, com este sistema, começavam a ser instituídos pela própria máquina do Estado! Compreender a axiologia do Estado novo é compreender, não só, a barreira retardatária que constituiu para a afirmação do Jazz em Portugal, mas também, o aniquilamento do desenvolvimento cultural de Portugal e com a qual ainda sofremos nos dias de hoje. Apesar de tudo, Luiz Villas-Boas e companheiros conseguiram criar uma plataforma de aglutinação de interesses e esforços em prol do Jazz e, com sacrifício e persistência, fundaram o Hot Clube de Portugal. Como é que foi possível, que batalhas travaram, como venceram?... está no livro! Há uma lista de músicos portugueses que iniciaram uma actividade jazzistica nas décadas de 40, 50 e 60 e conhecer quem foram os nossos primeiros músicos de Jazz a alcançarem a internacionalização. Já agora: sabia que um guitarrista português foi considerado, por um dos maiores críticos de jazz da década de 50, um dos melhores guitarristas de Jazz do mundo? é verdade... está no livro!

O livro veio colmatar uma lacuna que existia em matéria do conhecimento do que foi a entrada e o processo de sedimentação do jazz em terras lusas... Quais considera serem as principais pistas que este seu livro abre para investigação futura? De certo que muito há ainda para investigar e conhecer...
Há muito, de facto, por fazer. Neste momento há 5 investigadores, em Portugal, 4 na Universidade de Aveiro sob orientação da Prof.ª Doutora Susana Sardo, que estão a preparar teses de doutoramento em musicologia/ciências musicais acerca do Jazz em Portugal. Comparativamente ao que tem vindo a ser realizado noutros países, no que concerne à produção de conhecimento musicológico no âmbito dos Estudos de Jazz, estamos muito atrasados. Existe o Centro de Estudos de Jazz da Universidade de Aveiro, cujo mentor é José Duarte e estou em querer que dará um forte contributo para o desenvolvimento desta área de estudos. Depois existe também a Jazz Ao Norte, que para além de ser uma excelente escola, com grandes mestres e instalações, é uma empresa que tenciona dedicar-se também à produção artística (festivais, concertos, workshops, etc.), pedagógica e científica. Um projecto muito interessante do Eng.º Pedro Ferreira (de profissão), saxofonista de Jazz (do coração)!

Quais foram os principais obstáculos com que se deparou ao longo da investigação? Encontrou resistências ou as portas foram-lhe escancaradas?
O maior problema ao longo do processo de pesquisa foi, sem dúvida, a fidelidade das fontes de informação. Todas as informações exigiam comparações com outras fontes, os próprios documentos careciam de ser comparados. O espólio de Luiz Villas-Boas, propriedade do Hot Clube de Portugal, foi muito importante. O Eng.º Bernardo Moreira foi sempre muito prestável e atencioso.... Depois a reflexão e o estudo, a análise das informações, a visão crítica e a resolução.

Como têm sido as reacções ao livro? Pelo que tenho visto, ouvido e lido, as críticas são bastante positivas...
Felizmente, sim! Para além das críticas, tenho recebido mensagens que, a avaliar pelo seu teor, demonstram o interesse que o livro tem suscitado. As personalidades que me têm escrito, amavelmente, de áreas diversas, comprovam a transversalidade e o interesse multidisciplinar deste trabalho relativamente aos estudos da sociedade, da cultura e da política portuguesa na 1.ª metade do séc. XX.

E agora: vai continuar a orientar o seu percurso científico para o jazz? Está nos seus planos escrever o livro "Jazz em Portugal 1956 - 2007"?
Estou neste momento a preparar a minha tese de doutoramento que será dentro dos estudos de Jazz. A seu tempo será conhecido o tema...

Tenho conhecimento de que estão na forja outros livros que farão luz sobre a história e a evolução do jazz em Portugal... Tem contactos com esses autores?
Conheço o Dr. João Moreira dos Santos que já tem desenvolvido pesquisas sobre a História do Jazz em Portugal e penso que está a preparar uma edição.

Tenho para mim que era hora de alguém escrever uma "Enciclopédia do Jazz Português" (ou do Jazz em Portugal), à semelhança do que já se fez para o cinema, por exemplo... Partilha desta ideia?
Sim, parece-me uma excelente ideia. Aliás, já há planos nesse sentido. Há um trabalho que está a ser desenvolvido pelo Instituto de Etnomusicologia da Universidade Nova de Lisboa, presidido pela Prof.ª Doutora Salwa Castelo-Branco (etnomusicóloga) que é uma Enciclopédia da Música Portuguesa no Séc. XX. Neste trabalho, que está a ser desenvolvido há mais de 10 anos e já no prelo, penso, existem entradas de músicos de Jazz.

Como analisa o actual panorama do jazz em Portugal? Há mais músicos, mais concertos, mais discos, mais divulgação... mas há sempre um mas...
O Jazz em Portugal é uma música de Festivais. Aí sim, as salas estão cheias. O importante é que as pessoas saibam o que estão a ouvir. Será que sabem ouvir Jazz? Contudo, na Música Erudita Ocidental não se passará a mesma coisa? Por razões de formação cultural, a única música verdadeiramente consolidada é a música de massas, e o Jazz não é uma música de massas. É uma música de culto! Mas nada disto me choca: gosto de ver salas de concerto esgotadas e lentamente, acredito, o conhecimento vai-se sedimentando e o público tornar-se-á mais esclarecido. A este respeito julgo que existe uma «missão» importante que deve ser desenvolvida por musicólogos, músicos, críticos: Porque não fazer concertos comentados por especialistas (e não por curiosos)? Não chega saber quem tocava com Louis Armstrong nos Hot Five ou quem tocava com X no ano Y... ou saber os nomes dos discos e os temas que aí estão registados... são informações interessantes mas redutoras e isso não é saber sobre Jazz. Os concertos comentados, as palestras, etc., devem ser feitas por pessoas que conhecem as formas, as técnicas, a teoria, a genealogia, a história... julgo que seria importante pensar-se nisto. Na música erudita ocidental já se faz há muito tempo. O Prof. Doutor Rui Vieira Nery tem feito vários concertos comentados da chamada música clássica. Apesar de tudo, estamos no bom caminho... e Jazzfaz tarde (já se faz tarde)!

Publicado por António Branco às fevereiro 14, 2007 06:26 AM

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