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fevereiro 09, 2007

ENTREVISTA CARLOS BICA

Carlos Bica
Carlos Bica (Ftoto: Steve Stoer)

Dele se diz habitualmente que é o músico português mais internacional. Na música do contrabaixista e compositor Carlos Bica cabem, sem pruridos estéticos, diferentes universos musicais, que vão desde o jazz e as novas músicas improvisadas à música erudita contemporânea, passando pelo rock, pela música tradicional portuguesa e pelo fado. Radicado na Alemanha desde 1981, para onde partiu com o firme propósito de prosseguir estudos clássicos de contrabaixo, Carlos Bica tem vindo a construir uma sólida carreira, quer com o trio Azul (com Frank Möbus e Jim Black), o lado mais visível do seu trabalho, quer nas inúmeras colaborações com outros músicos, como José Mário Branco, Carlos do Carmo, Camané, João Paulo e Maria João, entre uma infinidade de outros. Dando mostras de grande vigor criativo, Bica lançou dois discos novos nos últimos meses: “A Chama do Sol” (ao lado do guitarrista finlandês Kalle Kalima e do trompetista alemão Sven Klammer) e “Believer”, o quarto disco do trio Azul, que conta com a participação de Vincent Von Schlippenbach, aka DJ Illvibe, filho de uma das principais luminárias do jazz europeu de vanguarda das últimas quatro décadas.

Ao analisarmos o seu percurso musical, chegamos à conclusão de que a música que faz não conhece fronteiras, nem estilos, sendo construída a partir de uma síntese muito pessoal de diferentes influências e linguagens... Presumo que não se considere um "músico de jazz" na mais corrente acepção da expressão... isso seria algo redutor, atendendo à versatilidade da sua actividade enquanto músico e compositor. É assim?
O género musical que me permite maior liberdade como músico criador chama-se jazz, por isso poderá ser correcto considerar-me um músico de jazz, apesar de preferir ser só músico. Todo o músico criador tem interesse em estar em permanente movimento, tem necessidade de ser constantemente surpreendido. Esse é o espírito que na minha opinião melhor caracteriza o jazz.

O que busca através da música?
A música faz parte da minha procura mais íntima. Uma viagem para o desconhecido.

As suas composições surgem muitas vezes bastante estruturadas, meticulosamente organizadas... Qual o prato da balança que pesa mais no seu processo criativo: a composição ou a improvisação? De qual parte preferencialmente?
Eu diria que sou um músico que gosta de compor e de fazer parte das suas criações, tornando-se numa das peças-chave das mesmas. Composição e improvisação não são antagónicas, pelo contrário, as melhores composições serão por certo aquelas que nascem de improvisações livres.

E qual é então o papel que atribui à vertente de improvisação?
Eu faço uso diário da improvisação e a maior parte das minhas composições nasceram de improvisos. Compor é a magia de deixar que o som nos leve ao inesperado assim como o improviso.

Como surgiu o seu interesse pela música? Percebeu cedo que queria seguir uma carreira musical? Pode dizer que tinha um rumo traçado?
O interesse pela música surgiu muito cedo e durante a adolescência tive as minhas bandas de garagem. Até aos 18 anos de idade nunca tinha posto a hipótese de vir a ser um músico profissional, pois imaginava que os músicos pertenciam a um grupo de eleitos. Quando então me foi dada a oportunidade de aprender a tocar um instrumento não a deixei escapar pois era um sonho que se tornava realidade. Desde então todo o meu percurso musical tem sido resultado de uma grande paixão e dedicação.

Iniciou os estudos de contrabaixo aos 18 anos. Porque escolheu este instrumento? Quais as características que queria explorar e que não encontrou noutros instrumentos?
Eu diria que o contrabaixo é que me escolheu. Quando me fui inscrever na Academia de Amadores de Música, desconhecia qual o instrumento que queria estudar. Fui então surpreendido pelo som do contrabaixo do Fernando Flores, que viria a ser o meu professor e mentor, e no dia seguinte comecei a aprender a tocar contrabaixo. Um feliz acaso.

A sua abordagem ao contrabaixo é de uma grande carga melódica, facto que terá certamente a ver com a sua formação clássica. Será esta a principal matriz da sua música?
O facto de a minha abordagem ao instrumento contrabaixo ter uma forte componente melódica deve-se em parte à minha formação musical, por outro lado não fui eu que escolhi o contrabaixo, ele é que me escolheu a mim. Eu não tinha qualquer ideia preconcebida de como um contrabaixo deveria soar. Ao mesmo tempo que eu aprendia a tocar este instrumento, também fui descobrindo o modo de me exprimir como músico cujo instrumento é o contrabaixo. No fundo, acabou por ser a minha natureza musical mais genuína aquela que prevaleceu. Um músico não pode vestir a pele do instrumento que toca, só assim será verdadeiramente livre para criar.

Dado o seu eclectismo, será curioso conhecer as suas principais referências, musicais, mas não só...
Eu ouço todos os géneros musicais. Gosto de ser surpreendido e por isso sempre gostei de ouvir rádio (apesar de as surpresas nem sempre serem pela positiva). Gosto de captar a energia e autenticidade das coisas e essa existe um pouco por todo o lado, há apenas que estar apto a captá-la.

É comprador de discos? O que ouve habitualmente?
Compro discos com alguma regularidade. Como neste momento considero ter em minha casa muita música para ouvir, com tantas coisas ainda por descobrir, perco por vezes a vontade de comprar mais cd´s pelo receio de não lhes dar a atenção que merecem.

Reside em Berlim há mais de duas décadas. Considera que tudo teria sido igual se tivesse ficado em Portugal? Viver no coração da Europa de certo contribuiu para olhar o mundo de outra forma...
Não sei como teria sido se eu nunca tivesse saído de Portugal. Tenho no entanto a certeza que a abertura que eu procurava na música, encontrei-a na cidade de Berlim. O liberalismo desta cidade e o encontro com músicos de culturas e escolas muito diversas é muito enriquecedor para o processo criativo.

Há, contudo, na sua música um acentuado lado melancólico e evocativo, que diria profundamente português. Assume esta "portugalidade"?
O meu lado português faz parte de mim próprio, é impossível fugir-lhe. É fundamental que exista honestidade naquilo que se faz, se essa vertente poética existe, ainda bem que assim é.

É muito requisitado para acompanhar fadistas. Qual é a sua relação com o fado? É uma fonte de inspiração?
Conheci o fado há 23 anos quando fui convidado para tocar num disco do Carlos do Carmo cuja direcção musical estava a cargo do José Mário Branco. A simplicidade da música e o poder de comunicação da mesma fascinaram-me desde esse primeiro encontro. Desde então fui convidado a participar em outras produções musicais de fado, nomeadamente nos álbuns do Camané. Toda a música poderá ser uma fonte de inspiração e o fado é a música mais portuguesa que existe e com a qual eu, como português, sinto uma afinidade muito forte.

No seu disco a solo, "Single", editado em 2005, resolveu aventurar-se ainda mais na exploração das vastas potencialidades do contrabaixo. Considera que foi uma aposta ganha?
Sem margem para dúvida. Pouco ou nada foi premeditado a longo prazo, desde a intenção de gravar um álbum a solo até à própria gravação do mesmo, que foi gravado num único dia. Foi um desafio ganho do qual muito me orgulho e uma grande lição a todos os níveis.

Depois de "Azul", "Twist" e "Look What They´ve Done To My Song", "Believer" é o quarto tomo da colaboração com o guitarrista alemão Frank Möbus e o baterista norte-americano Jim Black. E é talvez o disco mais introspectivo dos quatro. Fale-nos um pouco dele.
Para mim um álbum ideal, é aquele que independentemente do número de faixas funciona como uma peca única. Em "Believer" penso ter conseguido isso mais do que nunca. Apesar de eu tocar com dois dos melhores músicos do mundo, não é isso que se ouve em primeiro lugar, o que se ouve é a música. Na minha opinião é o álbum mais forte que nós até hoje fizemos e o segredo está na entrega às canções.

Pressente-se uma grande cumplicidade e empatia entre os três músicos, estou em crer fruto de um longo caminho já percorrido em conjunto. Como funciona o grupo em matéria de criação musical?
Muitas das músicas tem uma estrutura muito definida, outras começam por ser pequenos apontamentos onde eu acredito existir um potencial muito forte ainda por desvendar. O trabalho do “bandleader” é levar os trabalhos de casa já feitos para uma sala de ensaios, deixando no entanto a porta aberta para que a música possa vir a tomar rumos muito diferentes dos inicialmente previstos. Nós já tocamos juntos há 15 anos, e a química que existe entre nós tem vindo a amadurecer, não foi um dado adquirido, foi um presente dos deuses. A contribuição do Frank e do Jim para o som do Azul é única e imprescindível.

E as electrónicas? Sente-se atraído pela exploração destas novas linguagens? Em "Believer" surge acompanhado por DJ Illvibe.
As electrónicas são instrumentos ainda muito jovens mas com um potencial infinito. Sem dúvida que me sinto atraído pelo uso dos novos instrumentos e a exploração dos mesmos. Ao ter a oportunidade de ouvir o DJ Illvibe ao vivo fiquei fascinado pelas possibilidades incríveis do gira-discos usado por um músico. O gira-discos não é no entanto um instrumento electrónico, eu diria que é um instrumento analógico, o uso que o DJ Illvibe faz do gira-discos, esse poder-se-á situar no campo das novas linguagens electrónicas. A participação do DJ Illvibe no "Believer" é o resultado de 4 horas de estúdio sem ensaios prévios.

Lançou também recentemente "A Chama do Sol", composto na quase totalidade por peças suas. Quer falar-nos também um pouco sobre este disco? Como se enquadra, no conjunto da sua restante discografia?
O álbum "A Chama do Sol" é o resultado do meu encontro com dois músicos que também residem em Berlim: o trompetista alemão Sven Klammer e o guitarrista finlandês Kalle Kalima. Apesar de eu gostar muito deste álbum e da maior parte das composições serem da minha autoria, não o vejo como um álbum em que eu sou o líder, daí o nome da formação: Bica-Klammer-Kalima. Foi mais uma vez o som, resultante da junção destes instrumentos (guitarra acústica, trompete e contrabaixo) que me fascinou e me levou a juntar estes músicos. As cores do som são uma grande fonte de inspiração.

Tem composto para teatro, dança e cinema. Mas a sua música tem, só por si, um forte apelo cinematográfico. Concorda? Gosta de cinema?
Não existe nenhuma ligação directa com imagens quando componho ou toco, mas sim com sentimentos ou estados de espírito e serão esses que provocam no ouvinte uma associação a imagens. A existência de espaço na minha música, o facto de eu deixar a música respirar, poderá também ajudar à visualização de imagens. Sim, gosto muito de cinema.

E como está o projecto Contra3aixos, o trio com Carlos Barretto e Zé Eduardo, músicos com vincadas e distintas personalidades musicais? Deram alguns concertos, gravaram em Fevereiro último… Já têm data para a edição do disco?
Essa questão deverá ser levantada directamente à editora [Clean Feed], que foi a mentora da gravação em cd do projecto Contra3aixos.

Está atento ao que se passa actualmente em Portugal nos domínios do jazz e da música improvisada?
Tento acompanhar ao máximo a música de um modo geral em Portugal. O número de músicos e o número de concertos de jazz tem vindo a aumentar de uma maneira muito positiva por todo o Portugal, o que aumenta directamente a diversidade de oferta. Existem novas editoras discográficas portuguesas com grande vontade de trabalhar, só espero que mantenham presente a necessidade que os músicos portugueses têm em gravar e editar os seus trabalhos. Reconheço muitas vezes nos músicos portugueses uma atitude de tentarem seguir os padrões que lhes são impostos do estrangeiro, seria bom se eles acreditassem que há muito coisa por descobrir no próprio quintal.

Já sabe o que vai fazer a seguir? Novos projectos?
O próximo novo projecto em que eu irei estar envolvido será um projecto de dança com direcção de Madalena Victorino que terá estreia em Março, na Culturgest, em Lisboa. No início do próximo ano irá ser editado um novo álbum da cantora finlandesa Tuomi e iremos fazer de seguida uma digressão pela Alemanha. O Azul também irá fazer a sua "Believer" Tour pela Europa, em Maio. Não tenho o hábito de fazer planos a longo prazo, acredito que as coisas têm o seu tempo para acontecer, é apenas necessário estar a caminho.


DISCOGRAFIA SELECCIONADA

Como líder:

Carlos Bica & Azul – “Believer” (Enja, 2006)
Bica/Klammer/Kalima – “A Chama do Sol” (Nabel, 2006)
Carlos Bica – “Single” (solo) (Bor Land, 2005)
Carlos Bica & Azul – “Look What They´ve Done To My Song” (Enja, 2003)
Carlos Bica e Ana Brandão – “Diz” (Enja, 2001)
Carlos Bica & Azul – “Twist” (Enja, 1999)
Carlos Bica & Azul – “Azul” (Enja, 1995)

Como sideman:

Carlos do Carmo – “Ao Vivo: Coliseu dos Recreios de Lisboa” (Universal, 2004)
José Mário Branco – “Resistir É Vencer” (EMI-VC, 2004)
Camané – “Pelo Dia Dentro” (EMI-VC, 2001)
Carlos do Carmo – “Um Homem no País” (Philips, 1983)

[entrevista publicada no n.º 11 da revista Jazz.pt Jan/Fev 2007]

Publicado por António Branco às fevereiro 9, 2007 06:37 AM

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