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dezembro 18, 2006
LOU GRASSI - VIDA DE BATERISTA (II)
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(continuação) Entre finais dos anos setenta e o início da década de noventa esteve praticamente ausente da cena mais livre, com excepção para concertos ao lado do contrabaixista Steve Tintweiss – antigo companheiro de Albert Ayler – e da cantora Amy Scheffer. «Decidi regressar à escola e mudei-me de Brooklyn de volta para Nova Jérsia. Embrenhei-me bastante nos meus estudos e com os meus alunos e os meus concertos mais comerciais é que pagavam as contas. Tinha muitas colaborações com bailarinos/coreógrafos como Daniel Nagrin, Richard Bull, Lois Welk, Bill T. Jones e Arnie Zane. Estas foram algumas das mais criativas e inspiradoras pessoas com quem alguma vez trabalhei. Durante este período também dava concertos ocasionais com a Steve Tintweiss’s Space Light Band, que muitas vezes incluía Byard Lancaster e Charles Brackeen. Fiz dois discos durante este período com a Amy Sheffer. Neles participaram William Parker, Billy Bang e outros grandes músicos. Toquei também com Borah Bergman. Estive muito activo e criativo mesmo durante esse período», refere. Regressou ao jazz mais avant-garde em meados da década de noventa, com o Improvisor´s Collective, grupo de improvisadores de Nova Iorque, momento que considera crucial no seu percurso. «Foi um fantástico colectivo de improvisadores de várias disciplinas. Tive muita sorte em ter sido convidado para participar. Este facto mudou a minha vida e, claro, a minha carreira. Sem o Improvisor’s Collective não estaria agora a entrevistar-me.» Ao longo dos anos tem composto e tocado para dança contemporânea. Em seu entender, a relação entre ambas as formas de arte deverá ter um carácter simbiótico. «Idealmente, não deverá ser somente a música que acompanha a dança. Deverá ser uma experiência unificadora e interactiva entre todos os participantes, inspirados e motivados uns pelos outros», refere. «Unidade» é para si a palavra-chave na ligação entre a música improvisada e a dança. Mas nem só de música era feita a vida de Lou Grassi. Ensinou Aikido, arte marcial oriental, durante alguns anos. «Estudei e pratiquei Aikido, uma arte japonesa, durante 14 anos e ensinei durante 7 desses anos. Aikido significa “a via da harmonia com o universo”. É uma arte não-agressiva onde aceitamos um ataque como uma dádiva de energia, misturando-nos com essa energia e redireccionando-a para outro fim que não seja magoarmo-nos. No Aikido procuramos atingir um estado de “mushin” ou “estado da não mente”. É como um estado meditativo em que a mente está liberta de pensamentos. É também o estado de espírito ideal para tocar música improvisada. Há também o conceito de “Ki”. “Ki” é a força da vida. É conhecida na China como “Chi”, como em “Tai Chi Chuan”. Na Índia e no estudo do ioga é conhecida como “prana”. Quando aprendemos a controlar e direccionar o fluxo de “Ki” esta torna-se uma fonte de poder e de energia muito maior do que a mera força física.» Lou Grassi já visitou Portugal em diversas ocasiões. A última vez foi nos Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra, em 2005, com o quarteto que gravou “Avanti Galoppi”. Quando questionado sobre o panorama do jazz português, admite não saber muito. «Na verdade, não conheço muito do panorama jazzístico português, apesar de me parecer que para um país relativamente pequeno tem muitos festivais e concertos. Os amantes portugueses de jazz são muito conhecedores e sérios no que diz respeito à música», diz. Futuras colaboração com músicos portugueses é, apesar de tudo, algo que está nos seus planos. «Conheci e ouvi alguns músicos portugueses excelentes. O único com o qual tenho uma relação de trabalho é o saxofonista Rodrigo Amado, um grande improvisador. Estou muito interessado em tocar com outros músicos portugueses.» Relativamente a sua abordagem à música, considera não haver «qualquer diferença» entre começar com uma estrutura musical previamente estabelecida ou partir da livre improvisação. «Sinto-me igualmente confortável de uma maneira ou de outra. Aprecio igualmente ambas as abordagens», refere. Qual é então o papel da composição na sua música? «Vejo a composição como material de base. Pode ajudar a definir a direcção para a improvisação em função da ambiência, tonalidade, ritmo e energia da composição – ou não.» Um dos lados mais visíveis do seu trabalho é o que desenvolve com a PoBand, uma das formações mais interessantes da cena nova-iorquina dos últimos anos, que passou por uma fase conturbada, depois da morte do contrabaixista Wilber Morris. «Pensei em acabar com a PoBand, mas depois de um ano ou assim, com muitas pessoas a perguntarem-me pela PoBand, decidi reorganizar o grupo. Tocámos no festival “Improvised and Otherwise”, em Brooklyn, no ano passado, e como comemoração do nosso décimo aniversário gravámos um novo CD para a editora CIMP, intitulado “Infinite Potential”. Conta com a participação de Herb Robertson no trompete e Perry Robinson no clarinete, ambos membros originais da PoBand, juntamente com o jovem contrabaixista Adam Lane, que eu já sei já tocou em Portugal algumas vezes, e o fantástico David Taylor no trombone baixo. Gostava imenso de levar este grupo a Portugal.» O que, de resto, já esteve para acontecer num passado não muito longínquo: «De facto, ao longo dos anos mais do que um promotor português me disse que gostava de nos levar, mas até agora ninguém o fez. Estivemos uma vez agendados para estar no festival “Jazz em Agosto” em Lisboa mas fomos cancelados», recorda. Também o grupo Avanti Galoppi continua em plena actividade. «De momento não temos nada planeado, mas o nosso CD “Avanti Galoppi” continua a receber críticas favoráveis e estou confiante em relação ao futuro deste projecto.» Com o seu quarteto e quinteto tem apresentado arranjos originais de música que representam mais de 60 anos na história do jazz. O músico revela que a tradição tem um peso importante na sua música. «Penso que se quisermos ser sérios na música, qualquer que seja o tipo de música que toquemos, podemos ganhar muito a ouvir os primeiros mestres e os inventores do idioma, a perceber como os estilos evoluíram e como esses mestres do passado foram capazes de dar o passo seguinte. É claro que tudo leva o seu tempo», conta. E diz mais: «Eu já tocava há mais de 20 anos quando comecei a interessar-me pela música dos anos 20 ou 30, por exemplo. É bastante difícil ouvir a bateria em muitas das primeiras gravações, e quando era jovem não tinha tempo para isso, quando podia ouvir discos de Max Roach, Joe Morello ou Philly Joe Jones com a bateria fácil de ouvir. À medida que fui amadurecendo musicalmente fui sendo mais capaz de apreciar a música que eles fizeram e a reconhecer a razão pela qual músicos como Sidney Bechet, Louis Armstrong, Bix Beiderbecke e Baby Dodds, entre outros, foram verdadeiros génios. Sem as contribuições daqueles que vieram antes de nós a nossa música não seria possível.» Grassi tem igualmente uma vasta experiência na área do ensino. «Gosto de ensinar. Uma hora com um bom aluno pode ser muito estimulante e satisfatório», revela. No contacto com os estudantes procura encorajá-los «a ganhar controlo sobre o seu instrumento e a manter as suas mentes, ouvidos e corações abertos.» Apesar de lidar de perto com as gerações mais novas, confessa não ter muito tempo disponível para ouvir músicos mais jovens: «existem muitos jovens músicos talentosos a fazer um excelente trabalho, mas honestamente não saio muito para ouvi-los, excepto aqueles que tocam comigo. Não tenho tempo suficiente», conta. Ainda assim revela alguns nomes da sua preferência: «Trompetistas como Nate Wooley e Matt Lavelle, o contrabaixista Adam Lane, o saxofonista Stephen Gauci e o guitarrista Anders Nillson são alguns dos músicos mais jovens com quem já tive a oportunidade de tocar ou gravar que estão bem a dar conta do recado. Um jovem baterista que já ouvi algumas vezes e que gosto é Jeff Arnal.» Perante o coro de vozes que afirmam repetidamente o fim da inovação no jazz, o que pensa Lou Grassi sobre o jazz e a música improvisada dos dias de hoje? «O que esses críticos ouvem são músicos que pararam de inovar, o que não significa que a inovação tenha acabado. Sejamos francos, os músicos mais populares e com maior sucesso não são geralmente os inovadores. É o preço que se paga para se ser um artista verdadeiro.» Outro aspecto que tem sido motivo de acesa discussão na comunidade jazzística é a dicotomia técnica/atitude. Grassi entende que «a técnica vai melhorando de geração para geração e é hábito na juventude mostrar-se muita técnica mas menos conteúdo. É natural. Isso vem com a maturidade e é preciso viver para se ter uma história para contar.» E continua: «Os poucos que são artistas verdadeiros saberão encontrar o seu caminho. Os outros tocarão sem inspiração música mecânica e ensinarão as gerações seguintes a ter ainda melhor técnica. É assim e está bem», afirma. E como será o futuro? Para Lou Grassi o jazz e a música improvisada movem-se em muitas direcções ao mesmo tempo. «Possivelmente em todas as direcções ao mesmo tempo. Nos anos mais recentes muitos músicos de jazz e outros improvisadores têm vindo a estudar e a incorporar influências da “world music”. Penso que o jazz tenha incorporado todas as influências musicais do mundo. Por isso talvez o que vem a seguir para os músicos é terem de voltar de novo a olhar para dentro deles mesmos para ver o que são capazes de criar, em vez de procurarem fora deles o que podem pedir emprestado.» Encontra-se actualmente a trabalhar em inúmeros projectos. «Para além do disco da PoBand tenho também um CD em dueto com o Marshall Allen, gravado ao vivo no Festival de Guelph (Canadá), em 2001, que sairá pela Cadence em breve. Estou em três outras gravações para a CIMP, que também deverão ser lançadas nos próximos meses. Uma é com o quinteto de William Gagliardi e duas são com um quarteto liderado por um jovem saxofonista muito talentoso chamado Stephen Gauci. Tenho também um projecto com o grande pianista belga Fred van Hove e com o trombonista alemão Günter Heinz. Temos uma gravação de estúdio que fizemos em Bruxelas – estamos à procura da editora certa para a lançar – e ainda algumas excelentes gravações ao vivo, incluindo uma com o Fred a tocar órgão de tubos.» Mas não é tudo: «Estou envolvido em alguns projectos na Alemanha que têm gravações novas ainda por lançar. Um deles é um trio com o saxofonista Martin Speicher e o contrabaixista Georg Wolf. Há também um outro trio com um fantástico vocalista chamado Moo Lohkenn e o contrabaixista Leonard Jones. Mark Whitecage, Adam Lane e eu formámos recentemente um trio. Ainda não fizemos concertos, mas os ensaios têm sido fantásticos. Estamos todos entusiasmados com este projecto. Há também muitos outros projectos que estão ainda em fase de pré-produção. É muito trabalho», remata. [texto publicado originalmente no n.º 9 (Nov/Dez) da revista Jazz.pt] Publicado por António Branco às dezembro 18, 2006 07:39 AM ComentáriosComente |
