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Bruno Pedroso (© Sergio Cabanillas, 2006)
Bruno Pedroso é, aos 37 anos, um dos mais requisitados e versáteis bateristas do panorama musical nacional.
Começou a estudar bateria em 1987, tendo frequentado em que frequentou a Academia dos Amadores de Música e a Escola de Jazz do Hot Clube de Portugal.
Iniciou a sua carreira profissional tocando com grupos pop-rock, como os Heróis do Mar e os Mler Ife Dada. Passou depois pelos Plopoplot Pot, de Nuno Rebelo, e pelos Idefix, de Sérgio Pelágio. A sua ligação ao jazz começou com Pedro Mestre, em cuja banda tocou durante dois anos e na qual acompanhou Maria Viana. Tem tocado com muitos dos nomes de referência nacionais, de Maria João a Zé Eduardo, passando por a Carlos Martins, Paulo Gomes, Tomás Pimentel, Carlos Barretto, Pedro Madaleno, Nelson Cascais, André Fernandes, Nuno Ferreira, Bruno Santos, Afonso Pais, Bernardo Moreira, Vasco Agostinho, entre outros.
O “Improvisos Ao Sul” falou com ele e tentou saber mais o seu multifacetado e intenso percurso musical.
Como surgiu o seu interesse pela música? Começou a estudar bateria em 1987. Porquê a escolha deste instrumento?
Acho que é muito difícil de explicar ou identificar a génese do processo que leva alguém a apaixonar-se pela música ou por outra arte qualquer, ou até outro tipo de actividade. É uma tendência natural como tantas outras, às quais é necessário estar atento. Porque tudo começa a germinar em fases muito precoces, onde a consciência de nós próprios pode ser mais limitada, o ideal é que quem nos rodeia tenha em atenção as nossas curiosidades e interesses, e permita e patrocine a experiência de vários caminhos para que numa fase posterior cada um de nós possa constatar as opções de vida que, sem se ter apercebido, já tomou. Eu tive essa sorte. Os meus pais deram-me a possibilidade de assumir a música, através da bateria, como forma de vida. Música que de resto foi sempre o meu maior interesse. A música como eu a sinto, é uma das formas mais antigas da realidade virtual, ou seja, ter uma colecção de cd’s (por exemplo) é dispor de um “ficheiro emocional”. Ao ouvir um disco ou tema adequado, estou a reiterar uma emoção, ou a instalar outra. É a forma mais completa de o fazer que conheço. Essa é a importância da música para mim. E nela me enquadro e expresso através do meu instrumento.
Estudou na Academia dos Amadores de Música e na Escola de Jazz do HCP. Que recordações guarda desses tempos?
Recordo a época em que frequentei a AAM e a Escola de Jazz do HCP como talvez a mais fértil, de tão ingénua. A vida era muito fácil, porque as equações muito simples e optimistas. Para tocar muito bem achava que bastava estudar muito, coisa que fazia, definitivamente não em termos qualitativos, mas sim na quantidade de tempo que despendia no processo. Ainda não tinha minimamente consciência da miríade de nuances associadas ao conceito abstracto e muito simplista e redutor que é “tocar bem”. Só para se ter uma noção, nessa altura tinha muito mais certezas do que tenho hoje. De facto, Sócrates é que sabia!
Quais são as suas principais influências musicais (bateristas, mas não só)?
Gostava de ser como muitos músicos (e não só!) que conheço, que todos os dias ouvem atentamente um ou mais discos diferentes. Eu sou o oposto, cheguei a ter fases na vida que duraram mais de dois anos, onde todos os dias ouvia o mesmo disco (mais do que uma vez!). Com todas as desvantagens associadas. Mas sou uma personagem de paixões e obsessões. Daí que, apesar de poder afirmar que sou influenciado por tudo o que ouço, admito que foram três as minha principais influências “baterísticas”: Jeff “Tain Watts”, Bill Stewart e Jordi Rossi. Mas outros nomes merecem ser mencionados como influências decisivas: Roger Taylor, baterista dos Queen, fez-me tomar ainda na adolescência, consciência da minha paixão, na altura platónica, pelo instrumento. Inicialmente músicos como Dave Weckl, Steve Gadd, Dennis Chambers ou Omar Hakim, tiveram uma importância ainda hoje patente na minha forma de tocar. Posteriormente o leque alargou-se: Jim Black, Tony Williams, António Sanchez, Leon Parker, os “nossos” Alexandre Frazão e Mário Barreiros, Herlin Riley, Elvin Jones, Kenny Washington e Vernel Fournier, são alguns dos nomes que me ocorrem. A música de Jonh Scofield, Wynton Marsalis, Branford Marsalis, Perico Sanbeat, os obviamente incontornáveis Miles Davis e Jonh Coltrane e mais recentemente Brad Mehldau e Dave Douglas, são alguns dos nomes de uma lista quase impossível de reunir aqui na totalidade.
Iniciou a sua carreira profissional tocando com grupos da esfera pop-rock, como os Heróis do Mar e os Mler Ife Dada. Passou depois pelos PloPoPlot Pot de Nuno Rebelo e pelos Idefix. Como foram estas experiências?
A minha ingressão nos Heróis do Mar foi curta, na medida em que, nos meus 18 anos, não estava minimamente preparado para uma estrutura com aquelas características. Estava absolutamente absorvido pelo meu instrumento, muito mais do que pela música como entidade superior, o que impedia o meu envolvimento com qualquer contexto em que a forma de tocar do baterista fosse simples e altruísta, como na maior parte das vezes acontece quando se toca pop. Posteriormente cometi o mesmo erro com os Mler Ife Dada. Se bem me lembro como tudo se passou, gradualmente fui-me apercebendo de que raramente tocava para a música, mas, ao contrário, utilizava-a para praticar o meu instrumento e aplicar as minhas matérias de estudo. Como consequência, no final de todo esse processo de tomada de consciência, acabei por sair do grupo por iniciativa própria, dado que, também por falta de maturidade musical não conseguia reciclar a minha postura na banda. Mas felizmente que me voltei a cruzar com o Nuno Rebelo nos PloPoPlot Pot. Foi uma figura importante para mim, na medida em que posso dizer que foi a primeira pessoa a chamar-me a atenção para o facto de que se pode escrever tudo numa partitura musical, menos o que é de facto importante e profundo. O testemunho dessa filosofia, que hoje me parece sobejamente óbvia, foi continuado nos anos imediatamente seguintes por Sérgio Plágio, com os Idefix.
Na área do jazz tem tocado com muitos dos nomes de referência nacionais, de Zé Eduardo a Carlos Martins, passando por Paulo Gomes, Tomás Pimentel, Carlos Barretto, Pedro Madaleno e Paulo Curado, entre muitos outros. Trace-nos um breve historial da sua actividade como baterista de jazz.
Em 95 consumei a minha total metamorfose, transformei-me no clássico “jazz snob”. Durante cerca de 7 anos foi praticamente a única vertente musical que explorei e pratiquei, mais uma vez de uma forma apaixonada e obsessiva. Como com qualquer freelancer, foi-se tornando cada vez mais comum acompanhar músicos estrangeiros que vinham a Portugal fazer alguns concertos. É um contexto que ainda hoje exerce sobre mim um grande fascínio, pelo seu carácter imediato e efémero. Monta-se um reportório ao fim da tarde, e, depois de jantar, faz-se um concerto, muitas vezes com uma banda constituída por músicos (e músicas!) que apenas conhecemos há meia dúzia de horas atrás. Durante uma semana ou duas acontecem uma mão mal cheia de concertos, e tão abruptamente como começou, acaba. São situações estimulantes por exigirem conhecimento da linguagem e poder de concentração. Conhecem-se pessoas diferentes, que nos fazem evoluir com as suas dispares filosofias musicais. Alguns nomes que me ocorrem, das pessoas com quem toquei são: Rich Perry, Phil Markowitz, Nycholas Payton, Albert Sanz, Perico Sanbeat, Ricky Ford, François Theberge, Rick Margitza, Jonh Ellis, Richard Galliano, Reginald Veal, Aaron Goldberg e Bob Sands. O único inconveniente em situações desta natureza é o facto de nunca se saborear o prazer de tocar um repertório com uma evolução que se processou ao longo de um espaço de tempo mais lato. Mas essa sensação é-me proporcionada pelos projectos de músicos portugueses com os quais estou, ou vou estando, envolvido, como é o caso de Nelson Cascais, André Fernandes, Nuno Ferreira, Joana Machado, Paulo Gomes, Bruno Santos, Carlos Martins, Afonso Pais, Bernardo Moreira, Vasco Agostinho, Zé Eduardo, ou o pianista espanhol Abe Rabade.
Faz também parte dos Lisbon Improvisation Players (LIP), formação de constituição variável, liderada pelo saxofonista Rodrigo Amado, um dos principais baluartes do jazz de ponta em Portugal. Como é estar envolvido neste projecto?
Sem nunca ter conversado com o Rodrigo sobre o assunto, interpreto o termo “improvisation” dos LIP como extensível à própria formação da banda, ou seja, o Rodrigo, líder e catalizador, improvisa também a própria constituição do ensemble, de evento para evento, como tal não acho que faça parte dos LIP, mas sim que sou pontualmente convidado para um concerto ou gravação de um disco, como tem acontecido.
Para além dos LIP, em que outros projectos está actualmente envolvido?
Para além dos projectos já referidos, penso que é importante mencionar o Toap Collective, um projecto levado a cabo por músicos amiúde associados à editora Tone of a Pich, que vai lançar um disco de originais no mesmo dia em que faz o respectivo concerto de apresentação, no festival de jazz de Guimarães em Novembro.
É um músico muito requisitado e versátil. Onde está o segredo para se adaptar com facilidade a diferentes contextos musicais?
Frequentemente ouço dizer que sou um músico versátil, mas nas maioria das vezes sinto o contrário. Na verdade, se me pedirem para fazer um concerto de hard-rock, acompanhar uma banda de reggae, ou gravar um disco de pop, provavelmente vou declinar o convite, sendo a única razão o facto de achar que não tenho competências para tal. Sinto-me confortável num universo musical mais circunscrito, onde estão sempre em evidência as características acústicas dos instrumentos, onde possa tocar metade de um concerto com vassouras, se for preciso ou até só as mãos, porque a música assim pede ou até obriga. Não me sinto tão à vontade em situações onde as características da linguagem se sobreponham às propostas exclusivas das personalidades de cada músico. Ou seja, da mesma forma que, mesmo gostando de tocar standards, prefiro não o fazer com uma abordagem de há 40 ou 30 anos, mas sim com a minha reinterpretação, também não sou suficientemente versátil para tocar num contexto onde as regras de linguagem têm que ser obrigatoriamente respeitadas em detrimento da individualidade musical de cada um. Ainda que obviamente, cada um toque para o todo. O denominador comum nas minhas abordagens a (não tão) diferentes contextos musicais, é estar hiper-atento e permeável ao que se passa à minha volta, e, de acordo com os meus critérios, tentar reagir da forma mais musical possível. É tão subjectivo como isto e é o que se espera de qualquer músico.
Mantém a actividade docente? Onde? Que importância lhe atribui?
Actualmente dou aulas na escola Luís Villas-Boas (a escola do HCP) e na J. B. Jazz. Tenho sempre presentes as muitas angústias que senti como autodidacta, sem grandes possibilidades de esclarecer as minhas dúvidas, de tal forma que já tinha 30 anos quando fui uma temporada para Nova York, porque ainda sentia uma grande necessidade de confirmar, com músicos que admirava desde sempre, as conclusões a que tinha chegado até então. Hoje em dia Portugal está cheio de excelentes músicos, bem preparados, e com uma formação sólida. É essencial disponibilizar toda essa informação e experiência, para que as gerações que vão surgindo possam mais rapidamente começar a atingir os seus objectivos musicais, sem que o processo seja tão lento e confuso (e, por isso, às vezes pouco estimulante) como outrora.
Como vê o actual panorama do jazz em Portugal? Como pensa que este vai evoluir?
Ainda que o mercado nem sempre se comporte da melhor maneira, artisticamente acho que o panorama jazzístico em Portugal está repleto de boas e diferentes propostas. Desde os nomes mais antigos até aos músicos mais jovens, todos têm os seus projectos ou estão embrenhados nos de outrem. No seu melhor nível, Portugal tem excelentes representantes desta música. A tendência é para que o meio se desenvolva exponencialmente, dado o número crescente de adeptos do jazz, que em número cada vez maior recorrem a escolas que também proliferam. Na esfera dos festivais, há muito que Portugal é um país recheado. É necessário agora investir numa estrutura mais séria de outros suportes, como clubes e auditórios, para dar vazão ao crescente número de propostas.
Considera que existe um "jazz português" ou apenas um jazz feito em Portugal?
Acho que existe um Jazz português, e também um jazz feito em Portugal. Temos projectos que, concebidos por músicos com formação tradicional jazzística, se assim se pode dizer, são eminentemente inspirados na cultura musical portuguesa. Um bom exemplo é Bernardo Moreira com projectos como “Ao Paredes confesso” ou o disco em parceria com a cantora Paula Oliveira “Lisboa que adormece”. Existem outras situações em que a composição é absolutamente original, sem influências óbvias da nossa cultura ou outra qualquer. A música de André Fernandes, por exemplo. E obviamente que existe jazz feito em Portugal sem ser propriamente português. A lista é também extensa, mas pode ser encabeçada a título exemplificativo, pelo disco estreia de Jacinta.
O que podemos esperar do Bruno Pedroso nos tempos mais próximos?
“Congelei” o meu “modus vivendi” há quade 20 anos. E penso que continuar assim por muito tempo. Sempre que posso, sento-me a estudar o meu instrumento, ou a tentar absorver o maior número possível de influências para confeccionar a minha “sopa da pedra” musical. Hoje em dia ouço menos jazz do que música pop, por exemplo. E tenho mais curiosidade em ouvir um disco de música clássica ou étnica. O que possivelmente se irá repercutir na minha forma de tocar no futuro. Por outro lado, o factor que mais determina a qualidade e características da minha forma de tocar em dado momento, é o estado de espírito com que estou nesse instante. Como tal, o meu maior esforço, hoje em dia, ainda mais que evoluir tecnicamente ou adquirir mais conhecimentos, é aprender a manipular e controlar as minhas emoções e estados de espírito, de forma que me permitam atingir os resultados musicais que pretendo. Acima de tudo, assumo o cliché: Quero sentir-me cada vez mais e melhor preparado para lidar confortavelmente e sobretudo, prazenteiramente, com o maior número possível de diferentes situações musicais. Quem sabe? Fazer uns concertos de Hard Rock ou Raggae? Voltar a tocar Pop?...Mas tudo muito acústico!!
Discografia Seleccionada
Lisbon Improvisation Players – “Spiritualized” (Clean Feed, 2006)
Paula Oliveira & Bernardo Moreira – “Lisboa Que Adormece” (Universal, 2005)
Zé Eduardo Unit – “A Jazzar no Zeca” (Clean Feed, 2004)
João Paulo/Paulo Curado/Bruno Pedroso – “As Sete Ilhas de Lisboa” (Clean Feed, 2003)
Kiko – “Raw” (Discaudio, 2003)
Nelson Cascais Quintet – “Ciclope” (Tone Of A Pitch, 2002)
Companhia dos Sons – “Spin” (Tone Of A Pitch, 2002)
Zé Eduardo Unit – “A Jazzar no Cinema Português” (Cineclube de Faro, 2002)
Fátima Serro – “Day By Day” (Up Beat, 1998)
Publicado por António Branco às novembro 14, 2006 07:47 AM
O Bruno ...
è mt mais do q dizem dele... do q ele diz dele...
Tds sabem q ele é o "único" baterista ,
verdadeiramente baterista,
em Portugal ...
Publicado por: Frioleiras às janeiro 28, 2007 05:29 PM
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