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outubro 30, 2006

ENTREVISTA FILIPE MELO

Filipe Melo
Filipe Melo (© Mercedes Pineda)

Lisboeta de gema, Filipe Melo ainda não completou 30 anos de idade. É um dos mais destacados pianistas nacionais de jazz da nova geração. A preparar o sucessor de “Debut”, disco de estreia como líder, conta ao "Improvisos Ao Sul" um pouco do seu percurso na música e como se viu envolvido com mortos-vivos…

Nasceu em Lisboa, em 1977. Como foram os seus primeiros passos na música? Por que razão escolheu o piano?
A história é curiosa. Numa festa de crianças, um dos meus colegas estava a tocar uma peça de Czerny e estava a fazer um grande sucesso. Depois dele, eu sentei-me ao piano e comecei a tocar, mas infelizmente não sabia dar uma para a caixa. A mãe dele disse que eu estava a desafinar o piano e pediu-me para parar de tocar. Nesse dia, cheguei a casa deprimido e pedi aos meus pais para me ajudarem a encontrar um professor de piano... Foi o princípio do fim!

Estudou na Escola de Jazz do Hot e na Academia de Amadores de Música. Como foram esses tempos? Em que medida contribuíram para a sua evolução enquanto músico e compositor?
A minha passagem pela Academia foi intensa mas pouco proveitosa. Percebi que não era o tipo de ensino que me motivava, porque não havia muita interacção musical entre os alunos. Terá tido alguma importância, porque me ajudou a disciplinar o estudo. A minha aprendizagem na escola do Hot foi extremamente importante, especialmente porque conheci as pessoas que me inspiraram e motivaram a frequentar o clube e os concertos. As jam sessions foram uma importante escola para mim; lembro-me de que o nível era bastante elevado, na altura, e tive oportunidade de aprender a tocar com músicos de alto nível como o Nuno Ferreira, o Carlos Barretto, o Pedro Moreira... Recordo esses tempos com alguma saudade, e lembro-me que, na altura, era francamente disciplinado. Nunca achei que fosse especialmente dotado, então, criei uma rotina de 6 horas de estudo diário para dedicar ao piano. Também transcrevia muitos solos. Era cansativo, mas acredito que é uma fase importante para todos os músicos. Tal como dizia o grande Wes Montgomery, no Jazz temos de ser verdadeiros autodidactas, por mais escolas que frequentemos.

Quais são as suas maiores referências musicais? Refira-nos os nomes dos cinco pianistas que considera serem os mais importantes da história do jazz...
É muito difícil dizer cinco nomes! Gosto de tantos pianistas... Posso tentar- Bill Evans, Thelonious Monk, Oscar Peterson, Herbie Hancock e António Carlos Jobim.

Assume-se como um pianista que se movimenta na área do jazz dito "mainstream"? Entende que faz sentido esta designação?
Assumo que sou um pianista que se apaixonou pela linguagem jazzística e pela improvisação em todas as suas formas. É natural que muitas vezes me associem a uma linguagem mais tradicional, pois é o tipo de música que mais tenho gravado e tocado. Há muita música que adoro e que, infelizmente, não tenho tocado tanto como gostaria, porque muitas vezes sou um pouco conotado com um jazz mais "antigo".

Ao longo da sua carreira já tocou com nomes tão díspares como Carlos do Carmo, Carlos Barretto, Laurent Filipe, Bernardo Moreira, Los Tomatos, Peste & Sida, entre muitos outros. Como analisa o seu percurso evolutivo, como músico e compositor?
Essencialmente, tentei tocar com o maior número possível de pessoas para conseguir encontrar o meu caminho e a minha "voz". Creio que, no princípio, procurei tocar todos os géneros possíveis. Hoje em dia quero encontrar o meu próprio som, o meu próprio caminho. Adoro "standards", adoro música brasileira, adoro escrever música. Espero que o futuro me permita transmitir o verdadeiro prazer que tenho a ouvir e a tocar música. A evolução nunca me preocupou, acredito que é um processo natural e orgânico, como o de uma criança que se transforma num adulto - quero apenas continuar o que estou a fazer, da melhor forma possível.

Envolveu-se na política ao ser co-director e webdesigner da campanha eleitoral de Manuel João Vieira à Presidência da República... Conte-nos lá um pouco desta experiência...
Sempre gostei de projectos divertidos. O Manuel João Vieira é um dos grandes génios criativos da actualidade lisboeta. Sei que muitos poderão discordar, mas, sinceramente, acredito que o sentido de humor e de oportunidade do Vieira é brilhante, e acho que a candidatura dele foi um dos pontos altos da sua atribulada carreira. Tal como adoro que me ajudem nos meus projectos, decidi embarcar na aventura da campanha Vieira, e fiz tudo o que estava ao meu alcance para o ajudar a chegar às urnas. Foi um fracasso, mas o que me diverti à conta disso valeu todo o esforço. Não é todos os dias que se leva uma caixa de Pokémons ao Tribunal Constitucional...

O que costuma ouvir (em casa, no carro...)? Compra habitualmente discos?
Compro bastantes discos, sempre que consigo. Oiço muita música distinta - tenho estado a ouvir muita música brasileira, muitos discos do Jobim. Na minha colecção de discos há de tudo. Desde o Ben Webster até ao Albert Ayler. Ultimamente ,tenho ouvido muito jazz português; gosto muito dos discos do André Fernandes, do Nelson Cascais, do Nuno Ferreira, do Bernardo Moreira… Neste momento, no carro, está o "Speak Like a Child", do Herbie Hancock.

O cinema é outra das suas grandes paixões... É uma actividade a que também tem dedicado importante parte da sua vida... Explique-nos o seu fascínio pelo cinema fantástico/terror e, em especial, por zombies...
O filme de "zombies" foi um acidente de percurso. Nunca percebi bem o que se passou - eu só queria juntar uns amigos e vesti-los de monstros. Poderão encontrar lá alguns músicos de Jazz vestidos de zombie - Bernardo Moreira, João Moreira, Gualdino Barros, Jesus Santandreu... Não percebi bem como é que o filme deu tanto que falar, e nunca esperei que fosse um motivo de orgulho tão grande para mim. Fiquei muito contente por ter viajado, a exibir o filme por festivais, e por conseguir contribuir para uma tradição que adoro - os filmes de zombies fazem parte da minha infância, e trazem-me boas memórias. Adoro cinema, vejo muitos filmes, e tenho alguma facilidade em imaginar e contar histórias dessa forma. Espero, sinceramente , regressar algum dia com outra aventura nessa área.

Existe em Portugal uma nova geração de talentosos guitarristas. Mas com o piano as coisas não se passam exactamente assim... Não há assim tantos pianistas jovens a aparecer... Em seu entender, a que se ficará a dever esta situação?
Há, de facto, uma sensacional geração de guitarristas. O nível guitarrístico é altíssimo, em todos os estilos e linguagens, mesmo dentro do jazz. Quando comecei a tocar, os "monstros" pianísticos portugueses eram o Mário Laginha e o Bernardo Sassetti. O Mário foi um dos músicos que mais me influenciou, não estilisticamente, mas musical e pessoalmente. A sua total honestidade, humildade e individualidade fizeram com que a fasquia pianística subisse muito em Portugal. É uma questão complicada esta, porque, efectivamente, há menos pianistas de nível médio / avançado em Portugal - é um facto. Acredito, pela minha experiência no ensino, que há alguma relutância em aprender a tradição. Muitas vezes reparo que nos alunos há uma preocupação excessiva em inovar sem dominar os princípios básicos da linguagem. Há uma herança jazzística, um legado. Não haveria Brad Mehldau sem o Wynton Kelly.

Como analisa a actual cena jazzística no nosso País (músicos, discos, festivais, editoras, imprensa,...)?
Não tenho dúvidas de que Portugal é um dos melhores sítios para se ser um músico de Jazz. Há um circuito sólido de festivais, de lojas de discos especializadas, de revistas, livros e editoras dedicadas ao Jazz. Acho também que, com todas as divergências e polémicas que existem, somos uma família, e que cada dia está mais unida. O nível dos músicos está cada dia mais alto. Who could ask for anything more???

O que está na manga do Filipe Melo para os tempos mais próximos, na música e no cinema? Já tem uma ideia (ou mais do que isso…) de como será o sucessor de "Debut"?
Gostaria que o sucessor de "Debut" fosse gravado rapidamente, e queria que fosse uma versão 2.0 do primeiro disco. Já temos repertório novo, e estou ansioso por voltar ao estúdio com os meus dois comparsas, Bernardo Moreira e Bruno Santos. O disco vai chamar-se "Second time Around", e queria gravá-lo em breve. Estarei também ocupado com arranjos para o novo disco da Marta Hugon, uma excelente cantora e amiga, que vai ser gravado muito em breve. Queria também ter oportunidade de tocar e compor para um novo grupo, experimentar a tecnologia. Adoro os meus contemporâneos na cena jazzística actual, e espero continuar a tocar com eles. Na área do cinema, tenho estado a acabar o argumento de uma nova aventura, uma longa-metragem chamada "As incríveis aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy", um filme de aventuras alucinado, que eventualmente será produzido. Entretanto, espero conseguir continuar a viver da música, o que é um privilégio e uma benção!

Publicado por António Branco às outubro 30, 2006 07:29 AM

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