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outubro 27, 2005

RAVISH MOMIN - UMA VIAGEM INTERMINÁVEL

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Ravish Momin, baterista, percussionista, compositor, poeta e activista nasceu em Bombaim, na Índia, berço de uma cultura milenar. Mudou-se para os EUA, residindo actualmente em Nova Iorque. Explora a mistura de elementos provenientes da música tradicional de vários pontos do planeta com o jazz e a música improvisada. No último número da Jazz.pt foi publicado um breve perfil do músico. Aqui fica a entrevista completa.

Nasceu em Bombaim, Índia. Existe alguma tradição musical importante nessa região? Conte-nos como foi e é influenciado pelas diferentes culturas e tradições.
A Índia tem fortes tradições musicais, com mais de dois mil anos. Bombaim é uma cidade à imagem de Nova Iorque, muito cosmopolita, que absorve tudo. Quando era jovem, ouvia desde música tradicional do norte e do sul da Índia, música de filmes (Bollywood), cânticos religiosos, assim como música ocidental, pop e rock! Todos estes géneros musicais eram igualmente válidos para mim, como experiências de audição. Ouvia de tudo. Não fazia distinções na música. Embora tenha nascido muçulmano, a minha família não fazia distinções entre religiões, respeitávamo-las a todas. Passei muito tempo a estudar a história das diferentes religiões.

E a música, como opção de vida?
Não aprendi música muito novo. De facto, só comecei a tocar a sério aos 18 anos. Crescer num ambiente tão cosmopolita deixou em mim um forte impacto. Esta vontade de ouvir vários tipos de música ficou-me desde então. Mesmo depois de me ter mudado para os EUA continuei a absorver tudo, música clássica, reggae, ska, jazz, punk, hardcore e metal! Enquanto estudava, comecei a interessar-me por música tradicional de vários países, e perguntava a mim próprio, “mas o que é isto?”. O mundo é muito grande, com inúmeras tradições musicais, e eu ainda não consegui explorar a sua riqueza. Desde então, tornei-me obcecado por ouvir e estudar as diferentes tradições musicais de todo o mundo. É um compromisso para toda a vida, claro!

Porque escolheu a bateria e as percussões como forma de expressão musical?
Aconteceu! Nos anos 90, estive envolvido em protestos pela paz e o tambor era o instrumento natural para se utilizar nessas ocasiões… Desde então tudo se tornou mais sério!

Existe uma importante comunidade musical indo-americana em Nova Iorque? Refira-nos alguns dos nomes mais importantes.
Existe. A maioria dos músicos que chegam directamente da Índia tendem a tocar apenas as músicas tradicionais. Na comunidade musical indo-americana existem alguns músicos provenientes do sub-continente indiano que combinam a sua herança cultural com estilos de música ocidental. O mais interessante é que todos nós temos diferentes identidades musicais. Existem alguns bateristas que estão mais dentro do jazz, como Sunny Jain e Qasim Naqvi. O público português tem estado mais exposto ao jazz de músicos como Vijay Iyer e Rudresh Mahanthappa. Um primo meu, Alap Momin, está envolvido num projecto de hip-hop muito criativo chamado Dalek (na editora Ipecac, de Mike Patton). Há também o guitarrista Rez Abbasi, que toca um misto de guitarra e cítara no contexto do jazz.

Quais são as suas maiores influências (musicais, literárias, …)?
Sou muito influenciado pelos inovadores, nos diferentes campos. Uma lista extensiva seria fastidiosa. Se alguém estiver curioso, uma lista detalhada está disponível na minha página pessoal na internet [ravishmomin.com]. Para além da música, sou tão inspirado pela arte de Dubuffet, como pelas palavras de Fernando Pessoa, como por bailarinos criativos, fotógrafos, cientistas e engenheiros.

Estudou com Andrew Cyrille. O que guarda dessa experiência?
Ele foi um professor muito sério e metódico. Ensinou-me fundamentalmente a ler música! Para além desta componente básica, mostrou-me, usando o seu próprio exemplo, que um músico precisa de ser tão profissional em relação à música como em relação ao lado mais “empresarial” das coisas.

No Trio Tarana, você vem da Índia, Jason Kao Hwang nasceu nos EUA mas é filho de emigrantes chineses, e a família de Shanir Ezra Blumenkranz é originária de Israel. No entanto estão todos muito ligados uns aos outros. Como gerem as vossas diferentes origens e personalidades musicais?
Aí reside a beleza da criação musical! A música é universal, não é? Foi tudo muito natural. Antes, tinha havido diferentes versões da banda, mas a ligação pessoal e musical entre os actuais membros foi um clique! As composições são minhas, mas o Jason e o Shanir contribuem com as suas ideias e arranjos. É tudo muito aberto. Ambos são músicos extraordinários, com uma mentalidade muito aberta, que também estão envolvidos em diferentes projectos. A música é escrita a pensar neles!

A música do Trio Tarana é uma síntese muito original de ritmos japoneses e indianos, de canções populares do Afeganistão, de motivos do norte de África,… O vosso trabalho é baseado na mistura de diferentes tradições culturais com o jazz e a livre improvisação. Fale-nos sobre o vosso processo de criação musical.
O processo tem algo de subconsciente. Não começo por pensar “o que vou colocar nesta peça?”. Isso seria demasiado forçado… Como referi anteriormente, todas as experiências musicais convergiram na minha cabeça, e tudo sai naturalmente! Por vezes é subtil, por vezes mais óbvio.

Em 2004, lançou o disco Climbing the Banyan Tree na editora portuguesa Clean Feed. Como se estabeleceu o contacto?
Normalmente. Comecei por enviar a demo para diversas editoras, como toda a gente faz, mas não obtive qualquer resposta. Hoje em dia, é quase impossível conseguir um contrato discográfico, especialmente se ainda não se é famoso… Estava quase a desistir quando enviei o material para a editora portuguesa, que me respondeu quase imediatamente! Foi algo de muito importante para mim, pois na altura não tinha qualquer outro suporte. A Clean Feed acreditou no meu projecto desde o princípio.

Explique-nos o nome do disco: de que tipo de árvore de trata? Tem algum simbolismo especial?
Devia ter explicado melhor esta questão nas liner notes do disco… Trata-se de uma árvore tropical cujas raízes saem dos ramos e regressam ao solo para dar origem a outra mini-árvore… Uma árvore destas pode ser muito grande!... Como um labirinto! Estas árvores são sagradas na Índia e estão associadas a uma profunda mitologia. Quando eu era criança, em Bombaim, costumava subir ao alto destas árvores. O nome do disco pode ser entendido de várias formas, incluindo a de uma viagem interminável…

Qual foi a reacção do público americano ao disco?
A reacção foi óptima! Decidi enviar o disco para muitas rádios universitárias nos EUA e as coisas correram muito bem, chegando mesmo a n.º 1 na WNUR (Chicago). De São Francisco a cidades do mid-west, até cidades da costa este como Nova Iorque, o disco esteve muitas vezes no Top 10. Fiquei muito surpreendido! Editoras como a Delmark, ECM, Thirsty Ear, etc., gastam muito dinheiro na promoção dos seus discos, e eu consegui que este disco competisse com os discos delas! Mas o veredicto ainda não é final… Continuo a acreditar que com mais marketing e promoção o CD pode fazer muito melhor.

O Trio Tarana tocou recentemente em Tondela. Como o Shanir Blumenkranz não estava disponível, você e o Jason convidaram Ken Filiano para tocar convosco nesse concerto. Como foi a experiência, sabendo que a sonoridade do Trio Tarana tem uma ambiência muito própria?
Ainda não consigo acreditar em toda a situação! Podia ter sido realmente desastroso para todos os envolvidos. Todos os voos do Shanir foram cancelados e nós não tínhamos alternativa… Felizmente, o Ken também estava em Tondela! Ele também toca no quarteto do Jason [que se completa com Taylor Ho Bynum e Andrew Drury]. Ensaiamos durante a tarde, antes do concerto, e funcionou! A minha música tem de facto uma “ambiência especial”, como diz, mas é ritmicamente aberta. Não é exactamente jazz, ou world music, ou música experimental… Então, alguém com espírito aberto pode potencialmente trabalhar com esta banda… Claro que isto não significa que qualquer contrabaixista podia ter tocado connosco. Ken tem experiência em diferentes tipos de música, é um virtuoso e um grande ouvinte. Tudo se resolveu. Agora acredito em milagres!

Presentemente, em que outros projectos está envolvido?
Estou sempre a procurar projectos criativos para me envolver. Contudo, tento limitá-los, uma vez que o que realmente procuro é desenvolver “bandas” e não apenas projectos! Actualmente, para além do trio Tarana, toco no quinteto do saxofonista Sabir Mateen, no projecto ExTempore, da pianista Ursel Schlicht e no quarteto do lendário saxofonista da AACM [Association for the Advancement of Creative Musicians], Kalaparush Maurice McIntyre.

O que sabe sobre o panorama do jazz em Portugal?
Já ouvi alguns músicos portugueses que editaram na Clean Feed.

Equaciona a possibilidade de trabalhar com músicos portugueses?
Como disse antes, estou muito receptivo para trabalhar em novos projectos. Estou também interessado em trabalhar com músicos que saibam algo sobre os seus antecedentes culturais. A resposta é: claro que sim! Seria muito interessante trabalhar com músicos portugueses que fundem as suas raízes musicais com formas musicais contemporâneas.

Qual é a sua opinião sobre o jazz actual? Pensa que a técnica instrumental e a complexidade se têm vindo a sobrepor à atitude e à atmosfera?
Essa é uma questão difícil…Não sei se tenho espaço para explanar tudo o que penso sobre essa matéria!!! Mas, para resumir, penso que sim. Penso que a técnica e a complexidade são consideradas mais importantes do que a alma e a expressão… emocional. Para além disto, com o crescimento das escolas de jazz, a aprendizagem tem-se tornado cada vez mais académica. Muitos músicos têm uma grande técnica mas não têm nada de muito original ou criativo para dizer. Por mim, podem manter estes tipos para sessões de estúdio… Para mim, a melhor música não tem a ver com virtuosismo. Há espaço para ele, mas se a música não tiver uma forte componente emocional e visão criativa, não dirá nada ao público em geral. Isto aconteceu no jazz. Reparem onde se toca jazz e quem o ouve! Muitas vezes, em Nova Iorque, vejo sempre as mesmas pessoas nos concertos. Na maior parte dos casos o público é masculino e do meio académico. Demasiados músicos estão a tentar soar como outros, ou então estão a tocar coisas que só estudaram na teoria. E o que aconteceu ao groove? Foi completamente retirado, ou de tal modo envolvido pela técnica, que apenas os músicos sentados na plateia dizem “uau!”. O jazz tem que chegar mais ao público jovem, para se manter vivo. Não quero com isto dizer que deveríamos abolir a música “intelectual” ou “abstracta”. Claro que não. A nossa sociedade também precisa de cultivar capacidades de audição mais profundas.

É aí que está o problema…
A capacidade de audição está a tornar-se uma espécie de dinossauro, graças aos meios comunicação mainstream. No entanto, qualquer que seja a natureza da música, é preciso que a mesma venha do coração e que tenha um elemento dance-flow! (sim, mesmo uma baterista free como Rashied Ali tem um belo flow!) Não estou apenas a falar de “batida”. Estou a falar de uma pulsação, se quiser. De outro modo, o jazz será deixado apenas para os críticos discutirem nos seus blogues!

E quanto a planos para o futuro?
Muitos planos! Quero levar a minha música a todo o mundo. O meu objectivo é manter a banda junta, mais 10 ou 20 anos, como os grupos clássicos, e desenvolver uma linguagem própria. Como num bom casamento! Melhora com o tempo…

DISCOGRAFIA

Como líder:

Ravish Momin´s Trio Tarana – Climbing the Banyan Tree [Clean Feed, 2004]
Ravish Momin – Sound Dissolving Sound [Sachimay Records, 2000]

Como sideman:

Kalaparush and the Light (with Adam Lane) – Paths to Glory [CIMP, 2004]
Kalaparush Maurice McIntyre and the Light – Morning Song [Delmark, 2004]
Kalaparush Maurice McIntyre and the Light – The Moment [Entropy Records, 2003]
Sabir Mateen Quintet – Secrets of When [Blue Regard Records, 2001]
Kalaparush Maurice McIntyre and the Light – South Eastern [CIMP, 2001]
Ensemble Duchamp – Etant Donnez [Sachimay Records, 1998]



Ravish Momin´s Trio Tarana - "Climbing the Banyan Tree" (Clean Feed/Trem Azul, 2005)
[Ravish Momin (bateria, percussão, voz); Jason Kao Hwang (violino); Shanir Ezra Blumenkranz (contrabaixo, oud)]
Nova Iorque, 27/08/2003 e 10/01/2004

Há discos assim, capazes de ludibriar os sentidos. O cruzamento multicultural que está na génese do som do Trio Tarana radica, desde logo, nos músicos que o constituem. Percussionista de técnica notável e espírito inventivo, Ravish Momin – o coração do projecto – nasceu em Bombaim, na Índia, mas vive há alguns anos em Nova Iorque.

Das peças aqui incluídas, apenas duas não são da sua autoria. O violinista de origem chinesa Jason Kao Hwang, músico que tocou com luminárias como Anthony Braxton ou William Parker, é, há muito, um nome estabelecido na cena nova-iorquina da música improvisada. Por seu lado, Shanir Ezra Blumenkranz, contrabaixista e alaúdista frequentemente requisitado por John Zorn, descende de uma família israelita.

Em Climbing the Banyan Tree – o segundo disco de Momin como líder em 5 anos –, cruzam-se referências a locais geográfica e musicalmente díspares, numa amálgama sonora diversificada, mas sempre estimulante. O jazz e a música improvisada são o cimento que agrega todos estes diferentes tijolos sonoros.

A combinação entre o violino e o oud fazem emergir ambientes que nos transportam para outras latitudes, da Índia ao mediterrâneo, passando pelo médio oriente e pelo norte de África. O respeito pela tradição não é aqui um fim em si mesmo, abrindo antes portas à originalidade e à descoberta (oiça-se, por exemplo, Dai Genyo). Weeping Statue, que traz consigo o perfume do Índico, e o lindíssimo Instance Of Memory são igualmente momentos inspirados. Assente num padrão rítmico magistralmente engendrado por Momin, o hipnótico Peace For Kabul é uma peça de filigrana esculpida com mestria e sensibilidade por Hwang e Blumenkranz (aprecie-se o fabuloso solo de oud). Parting With A View deixa-nos em sobressalto, como qualquer despedida. Um disco sem fronteiras. Fascinante.

Publicado por António Branco às outubro 27, 2005 08:50 AM

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